Por muitos anos ele foi considerado um herói inferior. Era motivo de piada, gozação e deboche, tanto por parte daqueles que acompanhavam o universo dos super-heróis, quanto aqueles cujo conhecimento não ia muito além das figuras do Batman e Superman. Estes, quando questionados sobre o personagem, diziam saber apenas que “ele fala com peixes” (o que, tecnicamente, não é verdade). Agora, 77 anos depois de fazer sua estreia nos quadrinhos, chegou a hora de “Aquaman” inundar as salas de cinema com sua primeira aventura solo em live-action!

Dirigido por James Wan, conhecido por seus trabalhos em longas de terror como “Jogos Mortais” e “Invocação do Mal“, o filme chega às telonas com a missão de resgatar o status quo do personagem, que há muito se perdeu no mar do senso comum. Com roteiro assinado por David Leslie Johnson-McGoldrick e Will Beall, e história de Geoff Johns, Wan e Beall, a produção conta a origem do homem que atende pelo nome de Arthur Cury (interpretado por Jason Momoa, que reprisa o papel vivido em “Liga da Justiça“).

Imagem: divulgação

Filho do faroleiro Tom Curry (Temuera Morrison) e da rainha atlante Atlanna (Nicole Kidman), Arthur é o fruto de uma relação proibida; mas também, a ponte entre dois mundos. Quando ainda era criança, se viu separado de sua mãe, que foi obrigada a retornar à Atlântida para dar continuidade a um casamento arranjado. Deste matrimônio ela teve um filho, Orm (Patrick Wilson), que assumiu o trono quando foi condenada por traição. Agora, Orm deseja convocar uma guerra contra o povo da superfície pelos anos de poluição e destruição dos ecossistemas submarinos, e outros interesses pessoais.

O único meio para impedi-lo é se Arthur assumir o trono de Atlântida que é seu por direito. No entanto, esse não é o seu desejo. Além das tatuagens, ele carrega consigo mágoas à respeito do destino cruel que a mãe levou no reino aquático, e mesmo tendo salvo o mundo da ameaça do Lobo da Estepe ao lado da Liga da Justiça, não se considera um herói; tampouco um rei. A partir desse cenário, a trama se desenvolve com um bom ritmo e sem perder o fôlego, colecionando ao longo do caminho muitos acertos e alguns erros.

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Quando paramos para analisar “Aquaman“, são muitos os pontos a serem considerados, sendo o principal deles o tom do longa. É sabido por todos que, salvo “Mulher-Maravilha“, as produções da DC não agradaram muito a crítica. O público até que comprou a ideia de alguns filmes, que arrecadaram bons números na bilheteria, mas isso não era suficiente para os executivos do estúdio. A vontade de obter os mesmos resultados da rival era tão grande que os erros foram equivalentes. “Liga da Justiça“, lançado no fim do ano passado, foi a prova de que era preciso encontrar um novo caminho que não fosse o trilhado até aquele ponto, e muito menos um que copiasse a concorrência.

Durante o painel da Warner Bros. Pictures apresentado na Comic Con Experience 2018, a diretora Patty Jenkins (do primeiro filme solo da princesa amazona e responsável pela sua continuação ainda inédita) disse em vídeo que as próximas produções de heróis do estúdio procuravam apresentar narrativas épicas, com personagens clássicos, sem perder a essência deles e que fossem acessíveis para toda a família. Pois é tudo isso o que “Aquaman” significa: o primeiro passo em direção a este universo mais moderno.

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A mudança de tom adotada aqui é quase a mesma sentida nos quadrinhos da editora há dois anos, quando a fase dos “Novos 52” terminou e a do “Renascimento” começou. Na época, a DC enfrentava duras críticas dos leitores que a acusavam de ter se afastado da identidade dos personagens, com histórias muito sérias. O renascer da Casa das Lendas buscava resgatar o coração dos personagens perdido lá atrás, uma proposta que em sua primeira edição foi muito bem elogiada pela crítica especializada e fãs.

Em “Aquaman” as decisões parecem as mesmas. Fica de lado o tom dramático, pesado e tenso visto em “Homem de Aço“, “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” e até “Esquadrão Suicida“, e abre-se caminho para uma narrativa mais leve e bem-humorada que honra o legado de personagens tão icônicos sem perder o clima de aventura dos quadrinhos! Não que o tom sombrio fosse inapropriado, mas a DC e seus heróis vão além disso. Bem desenvolvido, o roteiro é recheado de ótimos momentos de ação com cenas de luta muito bem coreografadas; todas acompanhadas por uma câmera ágil que coloca o espectador no centro do conflito!

Os efeitos especiais são um espetáculo a parte, capazes de inundar os olhos da plateia! Construída com grande atenção aos mínimos detalhes como nunca antes visto em filmes de super-heróis, Atlântida é grandiosa e de tirar o fôlego. É impossível ficar apático com as cores, as luzes e as criaturas que vivem no fundo do mar; e a direção de arte soube muito bem como aproveitar as possibilidades desse ambiente tão rico. Os que já leram alguma história do herói certamente irão se surpreender e ficar muito gratos com a fidelidade aos quadrinhos (algo de suma importância para adaptações do gênero), e os que não a conheciam certamente irão querer descobrir mais!

Outro acerto do filme são os figurinos. Um mais lindo do que o outro, eles complementam a personalidade de cada personagem, sendo tão ricos visualmente quanto importantes para a históra. Os flashbacks que situam o passado de Arthur e de Atlântida são muito bem inseridos, sem soar em nenhum momento desnecessários para a trama. O entrosamento e a performance do elenco são satisfatórios, com destaque para Nicole Kidman, que além de ser poderosa é amável e assume com responsabilidade o papel de ser uma mãe no universo DC (algo muito reverenciado em todos os filmes), Amber Heard, que interpreta a valente Mera, e Yahya Abdul-Mateen II, que dá vida ao vilão Arraia Negra.

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Jason Momoa entrega um bom Aquaman, sem grandes mudanças em sua atuação se comparado ao que foi visto em “Liga da Justiça“. Por se tratar de um filme de origem, é compreensível que ele ainda não esteja tão maduro na pele do herói e um pouco próximo demais de sua própria personalidade, mas é algo para ser trabalhado mais pra frente. Já os pontos negativos são as piadas, que são desnecessárias em alguns momentos, o romance entre Arthur e Mera, desenvolvido de maneira piegas, e os diálogos, que foram totalmente rasos e não deram a atenção necessária a alguns temas, como as motivações ambientais do vilão.

Ainda que possua alguns vícios de linguagem típicos dos filmes de super-heróis, “Aquaman” é um dos melhores lançamentos do cinema de blockbuster desse ano. Ao sair de sua zona de conforto, James Wan entrega um trabalho excelente que solidifica seu talento como cineasta sem perder sua assinatura única (com direito a alguns sustinhos no meio do filme). Mais do que isso, o longa cumpre seu propósito de elevar o nível do herói ao patamar que sempre lhe pertenceu, além de guiar o barco do universo cinematográfico da DC em direção a novas e promissoras águas.

NOTA: 8,5


Direção: James Wan;
Duração: 2h22;
Gênero: ação, aventura, fantasia;
Classificação Indicativa: 12 anos;
Sinopse: Arthur Curry (Jason Momoa), mais conhecido como Aquaman, ainda é um homem solitário, mas quando ele começa uma jornada com Mera (Amber Heard), em busca de um algo muito importante para o futuro de Atlântida, ele aprende que não pode fazer tudo sozinho.

Trailer:

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