Quentin Tarantino. O que vem à sua mente quando vê este nome? Talvez cenas de ação, sangue, sequências de violência muito bem coreografadas, sangue, alguns palavrões, mais sangue… Com oito filmes no currículo como diretor, o cineasta norte-americano deixou sua marca na história do cinema mundial, além de servir como inspiração para diversos aspirantes à carreira. Porém, seu novo e nono longa-metragem se distancia de tudo o que esperávamos de Tarantino, pelo menos até os 20 minutos finais!

Ambientado na Los Angeles do final dos anos 1960, “Era Uma Vez em… Hollywood” é inspirado numa história real que chocou o mundo. Na noite de 09 de agosto de 1969, a atriz Sharon Tate, esposa do diretor Roman Polanski na época, foi brutalmente assassinada por três hippies que faziam parte de uma seita liderada por Charles Manson. Além dela, que estava grávida, outras quatro pessoas também foram mortas em sua mansão na mesma noite.

Imagem: divulgação

Porém, o roteiro do longa, escrito por Tarantino, tem início alguns meses antes, em fevereiro daquele ano. Era um sábado, dia 08, quando somos apresentados ao astro de TV Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt). Parceiros de longa data, eles já passaram por muitas coisas, seja na frente das câmeras ou por trás delas. Mas os tempos mudaram. Conhecido por seus programas de faroeste, Rick está prestes a chegar no fundo do poço de sua carreira.

Se outrora ele era popular, garoto propaganda de diversas marcas e convidado especial de programas de auditório, hoje ele se embriaga a maior parte do tempo e leva a vida se arriscando pouco nas gravações de pilotos de séries do gênero que o consagrou, na tentativa de obter êxito em alguma delas (mesmo que, frequentemente, esqueça suas falas durante as filmagens). A indústria que ele conhecia está em transformação, com alguns nomes ascendo à fama, como o próprio Polanski. Quando é convidado por um empresário para gravar filmes de bangue-bangue na Itália, Rick pensa se deve ou não aceitar a proposta, ao tempo que Cliff vive aventuras amorosas com uma hippie.

Imagem: divulgação

Cercado de altas expectativas, “Era Uma Vez em… Hollywood” pode chegar como um balde de água fria para muita gente. Com roteiro assinado pelo próprio Tarantino, o longa parece não ter um propósito ou objetivo específico. Os dois primeiros atos da película são arrastados e tentam preparar terreno para uma conclusão que não é entregue. É como se a história tivesse sido escrita na mesma hora em que fora filmada, como um improviso. Além disso, são muitos os momentos em que há uma súbita quebra de expectativas e ritmo, com cenas um tanto quanto desnecessárias que não agregam valor à obra como um todo.

Por outro lado, há muitas referências ao contexto histórico do assassinato de Sharon Tate que valem a pena ficar de olho. Das ruas à residência da vítima, dos ranchos de gravações ao declínio do estilo bangue-bangue com a chegada de novos filmes e diretores em Hollywood, passando pelo estilo de vida dos hippies de viver e ser (como por exemplo os hábitos de comer o que encontravam no lixo, a maioria feminina no rancho, o tratamento do sexo sem tabus, etc). Até mesmo Charles Manson (vivido por Damon Herriman) aparece no longa em um determinado momento.

Imagem: divulgação

No entanto, Tarantino deixa de lado a seita criada por Charles e toda a mitologia à respeito dessa figura, incluindo suas ideologias, planos e visão de mundo, o que traria uma abordagem mais completa do caso. Levando em consideração a filmografia do diretor, esperava-se que ele explorasse esse lado mais maníaco do guru espiritual, mas não. Depois de aparecer pela primeira vez de modo bem sutil, ele não volta mais em cena, o que faz o público se esquecer do foco da história até os derradeiros 20 minutos da projeção, quando o plano do assassinato é colocado em prática.

Talvez a escolha do diretor em não focar em Charles tenha sido para não dar voz às suas ideias racistas e imbecis, e principalmente por ser um assunto delicado até hoje para as pessoas que viveram durante os anos 1960 em Los Angeles. Embora apresente uma trama que leve nada a lugar nenhum, “Era Uma Vez em… Hollywood” possui uma excelente direção, ótimas atuações – com destaque para a pequena Julia Butters e o veterano Brad Pitt (que de fato segura o tranco do filme durante toda a projeção) – algumas cenas bem engraçadas e uma ótimas referências à cultura pop da época. Somente a participação de Margot Robbie deixa a desejar, visto que ela mal possui falas ou relevância para a história. Um desperdício.

NOTA: 7,0


Direção: Quentin Tarantino;
Duração: 2h45;
Gênero: drama, suspense;
Classificação Indicativa: 16 anos;
Sinopse: No final da década de 1960, Hollywood começa a se transformar e o astro de TV Rick Dalton e seu dublê Cliff Booth tentam acompanhar as mudanças.

Trailer:

COMPARTILHE

Deixe uma resposta