Presente em nosso dia-a-dia de diferentes maneiras , a arte é o meio que o ser humano encontra para expressar aquilo que há dentro de si. Por outro lado, parafraseando Aristóteles, “o homem é por natureza um animal político”. Seria correto então afirmar que a arte é política? Na opinião do cantor Davi Bandeira, sim.

Eu acho que só de ser artista você já é uma pessoa política”, pontua ele. “Um artista político é esse cara que está engajado, que não está mais no ‘individual’. Hoje em dia você não pode mais pensar só no individual, por causa de muitas pessoas que às vezes precisam de uma voz quando não tem”, continua. “Eu não acho que o artista político é só aquele que vai estar militando, não. É aquele cara que realmente usa de forma correta a voz dele”, completa.

Imagem: reprodução (Instagram)

Natural de Fortaleza, no Ceará, Davi Bandeira cresceu cercado de atividades que exploraram seu lado mais criativo. “Quando criança eu fiz aula de circo, desenho, música”, relembra. “Eu morava numa comunidade carente, então geralmente nessas comunidades tem muito movimento social ligado às artes. Meus primeiros contatos foram nesses centros mais culturais.

Apesar de não ter tido muita influência dentro da família para seguir com a carreira artística, a vontade de fazer música era intrínseca em Davi. “É algo que vem de dentro de mim que eu não consigo explicar de onde sai essa vontade e paixão por fazer o que eu faço”, diz. “Pode parecer clichê, mas eu falo pro meu companheiro isso, que às vezes eu queria entender de onde vem. Eu amo fazer música, eu quero chegar no momento que consiga viver financeiramente só da minha arte. É daí de onde eu tiro forças, sabe? É pelo prazer”, explica.

Formado em Teatro, Davi busca convergir seus conhecimentos de diferentes plataformas artísticas em sua música. “Uma vai somando outra, tudo ligadinho, como se fossem vários pilares de uma única construção”, ilustra. À princípio, segundo o cantor, o objetivo de cursar teatro era para perder a timidez, mas depois tomou gosto pela coisa! “O teatro, as aulas de dança, me fizeram ter mais postura, conseguir encarar as pessoas de forma mais direta, meu deu mais noção sobre o meu corpo e, consequentemente, eu tenho mais controle sobre tudo o que eu faço”, destaca.

Por falar em controle, o artista, que iniciou sua carreira profissional em 2016, conta que levou um certo tempo para descobrir quem era o Davi Bandeira cantor, e que tipo de música gostaria de fazer. Quem escuta suas canções mais antigas e as compara com as mais recentes, como “Seu Boy” e “Chora”, percebe uma mudança na sonoridade. “Eu sempre quis fazer um som mais pop, um som mais dançante. Não que eu esteja anulando, esteja dizendo que meu trabalho anterior é inferior. São mais uma descoberta, de como eu fui aprendendo a fazer, de como eu fui me encontrando”, pontua.

Imagem: ErnnaCost (reprodução – Instagram)

No entanto, nem todo mundo ficou satisfeito com os novos rumos que a arte de Davi tomou. “Quando eu lancei ‘Seu Boy’, e o clipe também, houve um choque muito grande. Eu percebi. Eu recebi muitas mensagens, por mais que eu fosse uma pessoa que falava abertamente sobre a minha sexualidade”, conta. “Meus pais sempre me apoiaram muito, mas minha mãe chegou pra mim e falou que achou o vídeo ‘desnecessário’. A minha mãe falou isso pra mim! Ela jogou na lata. Eu respeito, mas pra mim foi muito necessário”, desabafa.

Estamos num momento que a gente não sabe o que vai acontecer amanhã. A gente precisa se impor, a gente precisa mostrar para as pessoas que ser gay, ser LGBT, não quer dizer nada de mais no sentido geral, sabe? É só uma pessoa igual a você”, explica Davi. Em tempos onde o preconceito e a intolerância ganham força, e a censura volta a assombrar os artistas, a postura do cantor em não esconder sua identidade pavimenta o caminho de artista político que ele defende, trazendo mais visibilidade para quem precisa.

Com um EP (intitulado “Zon Maan”) e um álbum (intitulado “Ariano”) lançados nas principais plataformas de streaming, Davi Bandeira já trabalha num segundo disco de inéditas. “Ele não tem cara de disco ainda, sendo bem sincero, porque principalmente depois de ‘Seu Boy’ a gente entendeu que é o momento de lançar coisas antes de pensar num disco mais fechado. Mas assim, temos algumas músicas prontas”, explica.

Sobre o tom dos próximos lançamentos, o cantor adianta: “a gente tem trabalhado muito em cima dessa sonoridade mais pop, tentando fazer coisas diferentes, tentando explorar coisas que ainda não estão sendo feitas, por mais simples que elas sejam.” Ainda sem data de lançamento ou título revelados, podemos esperar que Davi Bandeira chegue mais perto de seu ideal como artista. “Eu me vejo como aquele cara que é um pouco mais livre, no sentido que eu possa explorar ritmos, possa explorar linguagens, possa brincar com isso dentro do meu som”, finaliza.

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