Quando um filme é lançado nos cinemas e tem um bom desempenho comercial, garantindo assim sua sequência, é natural que o público espere ver na continuação uma nova história, com novos desdobramentos e reviravoltas. Todavia, com a adaptação de “It – A Coisa“, clássico da literatura de horror lançado em 1981 pelo autor Stephen King, o processo foi diferente.

Antes mesmo de chegar às telonas, já era sabido que o longa seria dividido em duas partes. Também pudera, o livro possui mais de mil e cem páginas (na versão nacional)! Com uma narrativa tão longa e rica em detalhes, apenas um filme não seria suficiente para contar essa história. E olha que, mesmo com dois longa-metragens, muita coisa ficou de fora do corte final. Isso nos dá um pouco de noção do tamanho do universo criado por King, e também deixa claro o porquê dele atrair a atenção do público até hoje.

Imagem: divulgação

Considerado um dos filmes mais esperados do ano – não apenas dentro de seu gênero, mas de todas as estreias marcadas para 2019 – “IT – Capítulo Dois” é a conclusão da trama que foi iniciada em 2017 com “It – A Coisa“. Naquele ano, o longa quebrou o recorde de maior bilheteria de um filme de terror da história, posição que ocupa até hoje. Além do sucesso de público, a crítica também rasgou elogios para o filme. Agora, envolto sob a aclamação de sua primeira parte e com a promessa de quebrar mais recordes, as expectativas para o novo filme do palhaço dançarino são as maiores possíveis, mas até que ponto a pressão para repetir o sucesso é boa?

Dirigido mais uma vez por Andy Muschietti, “IT – Capítulo Dois” é como uma versão estendida da primeira parte. Ambientado 27 anos depois dos acontecimentos vistos no último filme, os amigos que se autodenominaram Clube dos Perdedores não estão mais tão juntos quanto antigamente. Já adultos, vivem suas vidas espalhados pelo país e bem distantes de Derry, mas sempre carregando dentro de si marcas daqueles eventos que transformaram suas vidas.

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Com o passar do tempo, as memórias de cada um foi encoberta por uma espécie de névoa. Apenas Mike (Isaiah Mustafa), que permaneceu na cidade, se lembra exatamente de tudo o que aconteceu. Durante estes anos, ele procurou estudar ao máximo a criatura e seus hábitos, para, no caso de um eventual retorno da coisa, estar preparado para enfrentá-la. Logo, quando eventos sinistros voltam a assombrar Derry, Mike precisa reunir todos os seus amigos para pôr em prática um juramento feito há muito tempo.

Produzido por Barbara Muschietti (irmã de Andy), “IT – Capítulo Dois” mantém intacta a essência que tornou o primeiro filme um sucesso, mas altera a fórmula de estrutura do roteiro. Temos aqui mais drama, menos piadas, mais terror e mais sustos rápidos (porém não necessariamente tão assustadores). Apesar de não ser uma sequência como as que estamos acostumados, onde uma nova história precisa ser criada do zero já que todo o material base foi utilizado no longa anterior, a trama desta continuação é muito ancorada nos eventos de “It – A Coisa“, não deixando espaço para se aprofundar nos personagens em sua forma adulta; o que é uma grande pena, já que o potencial a ser explorado era enorme.

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Outra falha do roteiro é o modo como alguns sustos são inseridos. Um dos maiores trunfos de “It – A Coisa” era conectá-los com os eventos traumáticos experimentados pelas crianças para gerar um medo mais profundo, no entanto, em “IT – Capítulo Dois” vários sustos acontecem sem razão aparente. As criaturas e monstros que surgem, salvo em certas ocasiões, não tem um porquê de serem mostrados de determinado modo. Eles apenas são daquela forma porquê Pennywise (Bill Skarsgård) quis! Isso sem falar no péssimo CGI utilizado em várias dessas cenas, que acaba tirando parte do terror do momento.

Mas nem tudo são problemas em “IT – Capítulo Dois“, muito pelo contrário! A direção de Andy Muschietti é excelente, por exemplo. Mais uma vez o argentino demonstra total segurança ao tomar as rédeas do filme, guiando-o através de quase três horas sem perder o fôlego ou a sua visão da trama. Muitos podem identificar um desacelerar de ritmo no segundo ato, mas ele serve ao propósito de conectar mais ainda a plateia aos personagens, conexão esta que é posta à prova no terceiro e decisivo ato.

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Aliás, se tem uma coisa que não podemos deixar de elogiar são os atores! Ainda que a missão de compor um elenco adulto que fosse tão carismático quanto o mirim era extremamente difícil e arriscada, a produção obteve grande êxito em sua escalação. Todos estão muito bem em seus respectivos personagens, mas com certeza os destaques são Bill Hader como Richie, James Ransone como Eddie e Jay Ryan como Ben. Além de serem muito parecidos visualmente com suas contrapartes infantis, o trio conseguiu extrair das crianças diversos elementos de linguagem corporal que nos fazem acreditar que eles são realmente suas versões adultas! Da postura aos olhares, passando pelo humor ácido com um timing muito específico, a construção dos personagens é impecável.

Outro integrante do Clube dos Perdedores que teve mais destaque nesta continuação foi Mike, vivido por Isaiah Mustafa. Se no primeiro filme ele aparecia pouco e não influenciava tanto a trama, aqui sua presença é de suma importância. No geral, a química de todo o elenco é excelente, e o tempo de tela de cada um é muito bem equilibrado. Agora quem merece elogios e palmas mais uma vez é o incrível Bill Skarsgård. O sueco de apenas 29 anos soube dar vida a um monstro incrivelmente assustador e, mesmo assim, nos cativar com sua performance totalmente entregue ao personagem. A experiência de vê-lo na telona evoca diversos sentimentos, inclusive o prazer de poder testemunhar uma atuação tão boa.

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Do ponto de vista técnico, com exceção do CGI mencionado anteriormente, não há do que reclamar. A paleta de cores, a fotografia, os planos… Tudo foi recuperado do que havia sido decidido para a identidade visual do primeiro filme. Até mesmo mudanças sutis nos ângulos da câmera antes de um susto são reprisados, o que para alguns pode funcionar como um mini spoiler do que está por vir em cena nos próximos instantes.

Entre erros e acertos, “IT – Capítulo Dois” se sobressai mais uma vez entre os filmes do gênero ao entregar à plateia algo além do que simples sustos. Respondendo a pergunta do terceiro parágrafo, talvez ele não faça tanto sucesso quanto seu antecessor, mas isso não importa. Ao encarar uma última vez o palhaço dançarino, o Clube dos Perdedores enfrenta seus maiores traumas. É como uma grande sessão de terapia em grupo, onde vencer a criatura significa vencer os próprios medos. É claro que o processo não é fácil e, em determinados momentos, bastante doloroso. Mas é preciso seguir em frente se quisermos chegar do outro lado e nos livrar de correntes mentais e emocionais.

NOTA: 8,0


Direção: Andy Muschietti;
Duração: 2h50;
Gênero: mistério, suspense, terror;
Classificação Indicativa: 16 anos;
Sinopse: Como a cada 27 anos o mal revisita a cidade de Derry, em Maine, IT: Capítulo Dois traz os mesmos personagens – que há muito tempo seguiram seus próprios caminhos – de volta como adultos, quase três décadas depois dos eventos do primeiro filme.

Trailer:

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