A vida é engraçada, não é? Quando somos crianças, achamos que tudo são flores e risadas. Não há motivos para se preocupar, afinal. Qualquer caixa de sapato se transforma numa nave espacial, e qualquer folha de papel se transforma num avião ou numa obra de arte digna dos melhores museus. Os prédios brilham, as balas deixam um gosto doce quando derretem na boca. Mas em algum momento temos que crescer.

Em algum momento, olhamos pro lado de fora da janela do ônibus e percebemos que o mundo de fantasia que havia em nossas mentes é, na verdade, uma completa ilusão. Compreendemos que não, nem todos podem chegar ao topo com simples trabalho duro. Nos damos conta de que o governo, cuja função teórica é cuidar de seus cidadãos, na real não dá a mínima. Descobrimos ainda que nem todas as crianças puderam brincar e ser feliz. E pior: percebemos que todos podem ser vilões, até aquela pessoa “trabalhadora e de bem”, dependendo da situação. E Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) está prestes a ilustrar isso.

Imagem: divulgação

Aspirante a carreira de comediante nos clubes de humor de Gotham City, Arthur apanhou sua vida inteira, tanto física quanto mentalmente. Por trinta e poucos anos, ele aguentou muito mais dor do que qualquer outra pessoa poderia. Bullying, violência doméstica, agressão nas ruas… Mas ninguém permanece intacto após tantos abusos. Arthur possui alguns transtornos mentais, incluindo um que o faz rir em momentos inapropriados, onde seu estado emocional não representa necessariamente alegria. Essa condição cria barreiras em seu relacionamento interpessoal, fazendo com que os outros o achem esquisito, louco.

Como se isso não fosse suficiente, ele ainda cuida da mãe já idosa e não muito bem de saúde. No entanto, como uma pessoa nessa situação pode ser responsável por outra? Arthur até passa por acompanhamento com uma psicóloga do serviço social da cidade, além de tomar medicamentos controlados, mas toda a sociedade ao seu redor está doente, o que dificulta sua recuperação. Enquanto isso, Gotham enfrenta uma dura greve dos lixeiros, que além de deixar toneladas de lixo nas ruas, expõe a sujeira que habita em cada pessoa. No fundo, todos estão doentes em algum nível, e a ferida dessa sociedade está prestes a ser aberta em definitivo.

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Brutal desde o começo, “Coringa” esfrega o rosto do espectador no asfalto gelado da crueldade humana. Dirigido por Todd Phillips, que assina o roteiro ao lado do escritor Scott Silver, este é um daqueles filmes que não aparecem todo dia nas salas de cinema, muito pelo contrário. São tão raros quanto belos, e por isso merecem ser vistos mais que uma vez. Ele traduz o que há de mais belo na arte cinematográfica de contar uma história. É uma análise completa de personagem, um mergulho de fôlego na psicose desta figura tão controversa quanto atraente, que detém há décadas o posto de maior vilão já criado.

Ainda que distante de qualquer história já contada nos quadrinhos, e também das normas de adaptação deste gênero cinematográfico, Todd não deixa escapar a essência deste personagem tão rico em camadas e nuances, tampouco a de Gotham City e seu caos sistemático; ao tempo que entrega uma nova visão deste universo sombrio. É definitivamente um novo patamar para como estes personagens tão icônicos dos gibis podem ser apresentados pela sétima arte. De novo, a DC quebra barreiras e remodela a indústria que muitos questionavam estar saturada.

Porém nada disso seria possível sem a espetacular e visceral atuação de Joaquin Phoenix. Totalmente desnudo de si, o ator compreendeu muito bem que, para dar vida ao vilão, era preciso mergulhar sem medo dentro do personagem, afim de extrair sua melhor versão. Da postura física, passando pelo modo de andar e correr, até as sutis mudanças de expressão em seu rosto carregadas de emoção, Joaquin dá uma verdadeira aula de atuação ao longo das duas horas do filme. A cereja do bolo, é claro, fica por conta de sua risada. Ora dolorida, ora assustadora, ela é o melhor exemplo de quando o riso pode ser um choro.

O restante do elenco também não decepciona. Zazie Beetz, que vive uma mãe solteira vizinha de Arthur, carrega em seu olhar o cansaço do cotidiano misturado com uma doçura encantadora. Aliás, o olhar distante e marcante de Frances Conroy, que interpreta a mãe do Coringa, é digno de uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Robert De Niro, que vive o apresentador Murray Franklin, captura o jeitão característico dos apresentadores de TV dos anos 70, e mesmo desfrutando de poucos minutos em tela, esbanja confiança e presença de cena.

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No que diz respeito a parte técnica, não há do que reclamar. A trilha sonora original de Hildur Guðnadóttir compõe uma melodia de lamúrias, capaz de transmitir dor e sofrimento sem uma palavra. Já a fotografia de Lawrence Sher constrói a atmosfera perfeita de uma Gotham City deteriorada. A montagem de Jeff Groth acolhe o espectador no seu próprio tempo, sem perder o ritmo em momento algum. Na verdade, os últimos 30 minutos do longa são completamente insanos, aumentando a tensão da plateia a níveis máximos e angustiantes. É um verdadeiro vórtex de sentimentos e emoções.

Como um prato cru, a violência explícita e pontual de “Coringa” nos embrulha o estômago; mas não é o ato em si que choca, e sim a realidade da ficção. O fato de estarmos vivendo num momento político e social bastante similar ao mostrado na telona nos faz refletir e compreender a verdadeira mensagem do filme. No fim das contas, o vilão é uma colcha de retalhos dos traumas que sofreu, um projeto malsucedido de autoestima que deu errado e se tornou destrutiva. Diferente do que muitos afirmaram, “Coringa” não é tóxico, senão para os que se identificam com os comportamentos grosseiros daqueles que adubam o terreno para o florescer do extremismo em nossa sociedade.

NOTA: 10


Direção: Todd Phillips;
Duração: 2h02;
Gênero: drama, suspense;
Classificação Indicativa: 16 anos;
Sinopse: “Coringa” é uma história original do vilão nunca antes vista no cinema. A versão de Phillips sobre Arthur Fleck (Phoenix), um homem desprezado pela sociedade, não é só uma visão realista do personagem, mas também uma lição de vida.

Trailer:

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