Ambientes de trabalho podem ser bons espaços para troca de ideias, experiências profissionais, crescimento pessoal, criação de laços de amizades ou relacionamentos mais sérios, entre outras coisas. Porém, ambientes de trabalho também podem ser locais tóxicos, restritivos, nocivos à saúde mental e a dignidade do ser humano; que te deixem mal consigo mesmo e te atrapalham indiretamente em tarefas simples do dia-a-dia.

Sim, nem tudo são rosas no mercado de trabalho, e não me refiro apenas à ferocidade atual, onde muitas pessoas encontram-se desempregadas e são capazes de fazer quase tudo para ter uma renda fixa que pague os seus boletos. Me refiro ao abuso no ambiente de trabalho. Em alguns casos, ele pode ser “apenas” psicológico, com pressão para cumprir metas e mal-jeito no tratamento interpessoal; porém em outros casos, o abuso pode ser físico e até sexual, como nos mostra o longa “O Escândalo“.

Imagem: divulgação

Baseado em fatos reais, o drama é ambientado num prédio da 6ª avenida em Nova York, onde fica a sede da rede de televisão FOX News. Além de servir de estúdio e redação para a emissora, o prédio também abriga outros grandes veículos de mídia, sendo praticamente um conglomerado físico da imprensa mais tradicional norte-americana. É neste local que trabalha Gretchen Carlson (Nicole Kidman), uma apresentadora veterana do canal que, cansada dos constantes comentários sexistas durante seu expediente, decide agir.

Além de reunir provas do mal-comportamento de seus colegas homens dentro da emissora, ela também planeja denunciar o CEO Roger Ailes (John Lithgow) por assédio sexual. Mas para levar adiante uma acusação tão séria, ela precisará contar com a ajuda de outras mulheres, que à princípio não estão muito dispostas a colaborar. Uma delas é Megyn Kelly (Charlize Theron), âncora de um dos jornais da FOX que começa sofrer ameaças de morte do público após fazer uma pergunta polêmica ao então candidato a presidência Donald Trump, em um dos debates promovidos pela emissora.

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Um pouco distante destas duas mulheres, pelo menos por enquanto, está a jovem Kayla Pospisil (Margot Robbie). Cristã, conservadora e millennial, como se auto-descreve, seu sonho sempre foi o de ser apresentadora no canal, e para alcançar seu objetivo, ela está disposta a fazer o que for necessário. Dirigido por Jay Roach, e figurando entre os indicados às maiores premiações do cinema nesta temporada, “O Escândalo” possui um tom bastante documental, quase “isentão”, ao longo de suas quase duas horas de projeção; mas que ainda é capaz de deixar o espectador impactado em sua poltrona.

No entanto, ao final da sessão, a impressão que fica é a de que o filme não quis bater tão forte na figura poderosa que foi Roger Ailes, falecido em 2017, apesar de seu comportamento condenável por trás das câmeras. Por se tratar de um trabalho de ficção inspirado em eventos reais, e não um documentário propriamente dito, o longa poderia ter dramatizado mais algumas situações, explorado os sentimentos das vítimas, a fim de entregar ao público um pouco do que foi a experiência para estas mulheres. Porém, a narrativa procura deixar as coisas um pouco mais leves, o que pode decepcionar boa parte da plateia.

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Por outro lado, existe um ponto que será consenso positivo entre todos os espectadores: as interpretações. Começando por Charlize Theron, sua atuação foi tão boa que lhe rendeu uma indicação ao Oscar 2020 na categoria de Melhor Atriz (clique aqui para conferir a lista completa)! Para dar vida a Megyn Kelly, ela precisou mergulhar em todos os aspectos da personagem, desde sua postura como âncora de TV (algo difícil de copiar e que requer anos de prática para qualquer jornalista), até seu lado pessoal e familiar. O resultado na telona é quase como se a própria Megyn tivesse interpretado a si mesma!

Margot Robbie foi uma grande surpresa em “O Escândalo“. Sua personagem, que no caso foi baseada em várias mulheres, parecia não ser tão importante para a trama até a metade da projeção. Daí pra frente, a atriz rouba nossos olhares e atenção para si, entregando a melhor cena de todo o longa! Seu nível de atuação e versatilidade em apenas alguns minutos deixa claro porquê a australiana é um dos grandes nomes de sua geração. A indicação ao Oscar 2020 na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante por este papel foi mais que merecida!

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Completando o trio principal, Nicole Kidman não chega a ser tão memorável quanto suas duas colegas, embora entregue uma boa performance e tenha sido sua personagem a estopim de toda a denúncia. Aos poucos ela acaba sendo apagada pelo roteiro, o que é uma grande pena. Agora quando viramos os olhos para o vilão da história, esbarramos na ótima performance de John Lithgow. O ator veterano está irreconhecível em tela, e consegue gerar na plateia diferentes sensações, que vão do ódio a completa repulsa.

Ainda vale destacar o excelente trabalho de maquiagem da produção, que conseguiu se aproximar ao máximo dos verdadeiros rostos que viveram essa história. Mesmo possuindo um ritmo um tanto quanto lento e alguns problemas de dinâmica no roteiro, “O Escândalo” é um filme que merece nossa atenção e audiência por retratar um momento importante da história contemporânea na luta contra o assédio sexual em seus diferentes espaços, e principalmente por reforçar a mensagem de que não, as mulheres não estão sozinhas, e juntas são muito mais fortes.

NOTA: 8,0


Direção: Jay Roach;
Duração: 1h49;
Gênero: drama;
Classificação Indicativa: 14 anos;
Sinopse: Estrelando as vencedoras do Oscar®, Charlize Theron e Nicole Kidman , os indicados ao Oscar® John Lithgow e Margot Robbie, baseado no verdadeiro escândalo, “O Escândalo” traz um olhar revelador dentro do mais poderoso e controverso império de mídia de todos os tempos, com a história pulsante das mulheres que afrontaram e derrubaram um infame homem à frente deste império. Dirigido pelo vencedor do Emmy®, Jay Roach, e com roteiro do vencedor do Oscar®, Charles Randolph, “O Escândalo” também é estrelado pela vencedora do Emmy®, Kate McKinnon, a indicada ao Globo de Ouro®, Connie Britton, a vencedora do Emmy®, Mark Duplass, o indicado ao Emmy®, Rob Delaney, a indicada ao Globo de Ouro®, Malcolm McDowell, e a vencedora do Oscar® Allison Janney.

Trailer:

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