Toda vez que um filme da DC está prestes a ser lançado, testemunhamos uma onda (ou melhor, uma tsunami!) de artigos e vídeos invadir a internet com aquelas velhas manchetes clichês: “agora a DC encontrou seu rumo nos cinemas“, “a nova fórmula da DC“, e a minha favorita, “o futuro da DC nos cinemas depois de [insira aqui o título do filme mais recente da empresa]“. Já deu, né?

Essa ladainha interminável que busca encaixar os filmes da DC num formato já conhecido pelo público, no que diz respeito à adaptações de quadrinhos, é puro desperdício de energia. Primeiro, porque nenhum executivo da Warner Bros. irá levar em consideração estes comentários sensacionalistas e pouco críticos; e segundo, porque a DC já se encontrou nos cinemas. Há tempos! Só algumas pessoas que teimam em não perceber isso!

Imagem: divulgação

Envolto numa densa nuvem de expectativas dos fãs – e até dos haters -, finalmente chegou aos cinemas de todo o país nesta quinta-feira “Aves de Rapina (Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa)“. Só pelo título exageradamente longo dá pra notar que este não se trata de um filme comum de super-heróis; muito pelo contrário! É algo inédito, que exala frescor em cada cena, único no gênero. E é à partir do título que entendemos a premissa da história.

Conectada aos eventos de “Esquadrão Suicida“, de 2016, a trama tem início quando o Coringa, chamado aqui carinhosamente de Sr. C, termina seu relacionamento com a Arlequina (Margot Robbie). Alguns flashbacks do longa dirigido por David Ayer inclusive entraram na montagem para situar o espectador do “amor” entre os dois vilões! Agora, depois de umas noites na bad, a palhacinha do crime percebe que é hora de se recompor e buscar independência; mas isso não vai ser fácil.

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Assim como aconteceu com outros filmes da DC no passado, “Aves de Rapina” entrou para a história antes mesmo de estrear. O motivo? Este é o primeiro filme do gênero protagonizado por um grupo de mulheres que foi dirigido, produzido e escrito por mulheres! A emancipação que há no título não refere-se somente à personagem Arlequina, mas sim a todo um conceito de como personagens femininas devem ser retratadas em adaptações cinematográficas de quadrinhos. Esta é uma grande conquista, não só para as mulheres, mas para toda a sociedade!

Mas você pode estar se perguntando: que diferença faz uma equipe majoritariamente feminina estar no comando de um filme como este? Ora, toda diferença! A começar pela não sexualização das personagens. Leitores de quadrinhos de heróis e espectadores de filmes deste gênero estão acostumados a ver personagens femininas usando roupas curtas, em poses sensuais, utilizando de seus atributos físicos para conquistar seus objetivos… É claro que não tem problema em ser sexy, o problema é quando tais personagens só possuem esta característica nas obras de entretenimento.

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Em “Aves de Rapina” nós temos sim mulheres bonitas e sexies, mas elas não se resumem a isso! Elas são poderosas, agressivas, sensíveis, corajosas, determinadas, multifacetadas. Elas não dependem de homens para tomar suas decisões! Numa época onde há muita desinformação sobre os conceitos de feminismo e empoderamento, é de suma importância termos um filme como este nos cinemas, que aborde tais temas e traga a discussão para um público que geralmente não tem muito tempo para este debate.

Ah“, mas você pode dizer, “então o filme é cheio daqueles discursos clichês que vemos repetidas vezes nas redes sociais?“. Não. O roteiro dispensa frases de efeito em seus diálogos, buscando conscientizar o público com situações dentro da história (seguindo o princípio do “mostre, não conte”). Há, por exemplo, cenas de assédio emocional e abuso sexual que são impossíveis de não se indignar. Há também sororidade entre as personagens em circunstâncias naturais, que somente mulheres poderiam pensar e escrever sobre.

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O comando feminino da produção também deu uma cara nova para as cenas de combate. Muitíssimo bem coreografadas, elas elevam o nível da ação e estabelecem um novo patamar para o que uma mulher é capaz de fazer num filme do gênero; e tudo isso sem esquecer do material de origem das personagens. As referências aos quadrinhos vão desde pequenos detalhes como os carros clássicos da máfia de Gotham, passando pela habilidade nos patins de Arlequina, até a estética quadrinesca adotada na fotografia do longa. Assim como nas HQs da personagem que aparece no título, o filme é colorido, violento e bastante gráfico!

No entanto, algumas liberdades criativas tomadas pela diretora Cathy Yan podem desagradar parte do público, no que tange à fidelidade aos quadrinhos. Apesar da personalidade semelhante a dos gibis, o visual inicial e final da Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell) está bem diferente, um tanto quanto gangsta; e a origem e abordagem de Cassandra Cain (Ella Jay Basco) não condiz em nada com a personagem criada pela dupla Damion Scott e Kelley Puckett em 1999. Mas dentro desse novo status quo, a performance das atrizes é muito boa; bem como a de Mary Elizabeth Winstead como Caçadora, e Rosie Perez como a detetive Renee Montoya.

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Outra mudança significativa se refere ao visual de Gotham City. Qualquer pessoa que tenha visto um filme do Batman, ou lido um quadrinho do personagem, ou ainda jogado um de seus vários games, sabe que a cidade é suja, sombria e com um ar um tanto quanto fúnebre. Porém em “Aves de Rapina“, a terra natal do Cruzado Encapuzado possui uma atmosfera mais clean; e essa impressão não vem do fato da maioria das cenas serem diurnas. A série “Gotham” e o filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” já mostraram a cidade sob a luz do sol, mas sem fugir de seu aspecto dark. Somente nas cenas finais que a Gotham que conhecemos aparece em sua essência!

Por ser contada do ponto de vista da Arlequina, a história não possui um desenvolvimento linear. Dentro de sua mente um tanto quanto maluca, a ordem dos acontecimentos se confunde e tomba sobre si mesma, o que dá a produção a chance de ouro de escapar das velhas e já arcaicas fórmulas narrativas de filmes de origem. Mesmo que não disponha de um enredo complexo, é bastante divertido, e às vezes até confuso, tentar organizar todos os fatos na ordem correta! Alguns, é claro, podem não gostar dessa abordagem do roteiro, mas é questão de tempo para se acostumar.

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Outro ponto sobre o roteiro que merece aplausos é a maneira como ele juntas as personagens em torno de um objetivo comum. Ao invés de forçar essa união apenas por conta do vilão Máscara Negra, muito bem interpretado por Ewan McGregor, a trama cruza os caminhos de cada uma de maneira orgânica e fluída, quase como o destino! Isso ajuda a manter o filme com os pés no chão, pois atrás de todos adereços e figurinos extravagantes, esta é uma história de pessoas sem super-poderes (com exceção da Canário Negro) e ambientada somente num espaço físico restrito, sem nenhuma ameaça de nível global.

Assim como em “Esquadrão Suicida“, a trilha sonora é um elemento de destaque em “Aves de Rapina“; mas ao contrário do longa de 2016, as músicas aqui não se sobressaem à história. O humor utilizado no filme é ácido e na medida, nos arrancando boas risadas em momentos pontuais. Ao final da projeção e da excelente cena pós-créditos, ficamos com aquele gostinho de quero mais, principalmente pelas possibilidades de continuação que o final nos deixa. Ousado e inovador, “Aves de Rapina (Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa)” é mais um acerto deste universo plural e em constante construção da DC nos cinemas. Aceita que dói menos!

NOTA: 8,9


Direção: Cathy Yan;
Duração: 1h49;
Gênero: ação, policial;
Classificação Indicativa: 16 anos;
Sinopse: Você já ouviu aquela da policial, do pássaro que canta, da psicopata e da princesa da máfia? Aves de Rapina (Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa) é um conto distorcido contado pela própria Arlequina, como somente a própria pode contar. Quando o vilão mais narcisista de Gotham, Roman Sionis, e seu zeloso braço direito, Zsasz, têm como alvo uma jovem chamada Cass, a cidade fica de cabeça para baixo procurando por ela. Os caminhos de Arlequina, Caçadora, Canário Negro e Renee Montoya se cruzam e o improvável quarteto não tem escolha a não ser se unir para derrubar Roman.

Trailer:

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