O ato de assistir um filme pode parecer bastante simples à primeira vista. O máximo de esforço que você precisa fazer é escolher um filme e se manter acordado enquanto ele é reproduzido. Fácil, não? Bom, nem tanto assim. Primeiro, você não simplesmente assiste qualquer filme de maneira aleatória. Existe um processo de escolha antes, que depende de vários fatores subjetivos. Depois, é preciso estar disposto a mergulhar naquela história, se deixar emocionar por ela. Por fim, você não se mantém passivo enquanto o longa é exibido. Você vai além, cria suas próprias interpretações e analogias. Assim, o ato de assistir um filme é bem mais complexo do que parece. O ato de analisá-lo criticamente, então, é muito mais!

Além dos vários pontos técnicos que um crítico de cinema precisa se manter atento durante a exibição de um filme, como por exemplo atuação, fotografia, montagem, trilha sonora e direção, um outro fator precisa estar bem claro na mente deste profissional: o objetivo que o longa pretende alcançar. Às vezes, é possível identificá-lo antes mesmo da projeção começar. Um filme de origem de super-herói, por exemplo, precisa ser claro na narrativa de como, quando, onde e sob quais circunstâncias aquele ser poderoso de capa apareceu na terra. Por outro lado, alguns filmes não tem seus objetivos tão claros assim, tornando o processo de análise mais trabalhoso. “A Guerra de Anna” é um filme que se encaixa nessa segunda definição.

Imagem: divulgação

Dirigido pelo cineasta russo Aleksey Fedorchenko, que assina o roteiro ao lado da conterrânea Nataliya Meshchaninova, o longa narra a sofrida história de Anna (Marta Kozlova), uma garota judia que, por sorte ou azar, sobrevive à execução de sua família por tropas nazistas que invadiram a região da União Soviética onde ela vivia. Encontrada por um casal numa vala onde os corpos de judeus eram despejados, ela acaba indo parar num prédio que parece um antigo colégio, mas que agora é ocupado por nazistas. Para não ser morta, Anna se esconde dentro de uma lareira. Por entre as frestas da estrutura, ela testemunha o que acontece do lado de fora nos próximos e incontáveis dias.

Ambientado em 1941, “A Guerra de Anna” é uma produção de baixo orçamento que ostenta um grande valor sentimental. Embora centenas de curtas e longas-metragens já tenham abordado o período da 2ª Guerra Mundial nas telonas e telinhas, temos diante de nossos olhos uma produção que encontra uma pequena janela de originalidade para contar sua história. Não espere ver cenas de confrontos armados, explosões e invasões orquestradas de exércitos. A única luta retratada ao longo dos 74 minutos da película é a de Anna pela sobrevivência, explicitando não somente os horrores daquela época, mas criando um paralelo com a atual situação de milhares de crianças refugiadas que perderam muito cedo sua inocência.

Imagem: divulgação

Repleto de cenas desconfortáveis, como por exemplo quando a protagonista precisa beber o próprio xixi para não morrer desidratada, uma se sobressai pelo seu simbolismo. No trecho, Anna está dentro da lareira comendo pedaços de um livro enquanto, do lado de fora, mulheres experimentam jóias e conversam sobre pedras preciosas. Ainda que estejam no mesmo quarto, o abismo social entre elas é gigante. Graças a ótima performance da pequena Marta Kozlova, é impossível se manter indiferente ao seu sofrimento, mesmo que seja apenas ficcional. Vale ressaltar que a atriz praticamente não contracena com outras pessoas, e não tem uma linha de fala sequer, sendo totalmente responsável pela evolução da trama.

No entanto, a ausência de outros personagens e subtramas que acrescentem camadas ao drama vivido por Anna tornam alguns momentos do filme cansativos. Quem não estiver tão disposto a adentrar na atmosfera do longa provavelmente irá se entediar nos primeiros 15 minutos. Entretanto, aqueles que decidirem acompanhar a jornada da jovem até o final irão encontrar uma bela fotografia e ambientação de cenários, além é claro de uma satisfatória dose de drama. Com um final aberto, pode-se dizer que o maior objetivo de “A Guerra de Anna” é evocar sensações e reflexões no espectador, e não apenas contar uma história com começo, meio e fim. Afinal, muitas outras Annas continuam vivendo em condições sub-humanas ao redor do planeta hoje.

NOTA: 6,0


Direção: Aleksey Fedorchenko;
Duração: 1h14;
Gênero: drama, guerra;
Classificação Indicativa: não definida;
Sinopse: Uma garota judia recupera a consciência sob uma camada de terra negra. Ela está em uma vala comum. Anna tem seis anos e está viva graças a sua mãe, que morreu para que ela sobrevivesse. Toda a família de Anna morreu durante a execução em massa de judeus, em 1941, na União Soviética. Pelas próximas centenas de dias, Anna se esconde na lareira abandonada do escritório de um comandante nazista. De seu abrigo, ela observa a vida passar até a vila ser libertada dos nazistas. Nessas condições desumanas, Anna não apenas sobrevive, mas mantém sua humanidade. Muitos fatores a ajudam: lembranças da vida varrida pela guerra, os fundamentos culturais lançados pelos pais e um amigo que a salva da solidão.

Trailer:

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