Você já sentiu fome? Não me refiro àquela fome de quando ficamos sem comer durante algumas horas, mas sabemos que, ao voltar pra casa, poderemos saciá-la. Estou falando da fome que faz seu estômago doer dia e noite, da fome que assombra as dispensas vazias, da fome que pode até matar. Honestamente, eu espero que você nunca tenha sentido esse tipo de fome, e que nunca venha a senti-la, mas infelizmente muitas pessoas convivem com ela diariamente, e não só em nosso país.

Mesmo com toda a evolução tecnológica, medicinal e social da humanidade, o problema da fome nunca foi solucionado por completo. Baseado nesse tema, em 1974 o italiano vencedor do Nobel de Literatura Dario Fo escreveu a peça “Non si paga! Non si paga!“, que conta a história de duas mulheres que se envolvem num protesto de donas de casa que se recusam a pagar os preços exorbitantes do mercadinho do bairro, o único da região. A trama, cheia de críticas políticas e sociais, continua mais atual do que nunca, e, após ser adaptada para os palcos de diversos países, chega este mês nos cinemas e plataformas digitais no formato de longa-metragem!

Dirigida por José Fonseca, que faz aqui sua estreia como diretor de cinema, a comédia “Não Vamos Pagar Nada” estava inicialmente prevista para desembarcar nas telonas em maio deste ano, mas por conta da pandemia do novo coronavírus, precisou ter seu plano de lançamento alterado. Agora, o filme estreia neste fim de semana nos poucos cinemas que estão abertos pelo país, e na próxima quinta-feira, dia 15 de outubro, chega no Telecine e em outros serviços de streaming para locação digital.

Estrelado por Samantha Schmütz, Edmilson Filho, Flávia Reis, Leandro Soares, Fernando Caruso e Flávio Bauraqui, e com participações especiais de Criolo e Paulinho Serra, o longa acompanha Antônia (Schmütz), uma mulher desempregada que faz malabarismos para viver com pouco dinheiro. Quando vai ao mercado no meio do mês e descobre que não vai conseguir nem comprar o básico, ela reclama com um dos funcionários, o que acaba contagiando outros clientes. Diante das ameaças do insensível e mercenário dono do mercado, o povo vai mais longe e decide: ninguém vai pagar nada! Na confusão, Antônia pega o que encontra pela frente, mas quando chega em casa tem que esconder as sacolas não só do marido, como dos policiais que aparecem para investigar o caso!

Sob um olhar mais simplista e até mesmo preguiçoso, “Não Vamos Pagar Nada” pode parecer apenas mais uma comédia nacional com personagens populares que enfrentam situações inusitadas e cômicas; porém, quando olhamos para a obra com um pouco mais de atenção, percebemos quantas camadas ela possui e as várias reflexões que propõe ao espectador entre uma risada e outra. Com um ritmo ágil e bem desenvolvido, o filme consegue manter a essência do teatro, ao utilizar poucos cenários e se apoiar bastante na performance dos atores, sem perder a mão em aspectos técnicos cinematográficos, como por exemplo a boa montagem.

Além do ótimo texto, um dos pontos de maior destaque na produção é o seu elenco. Muitíssimo bem afiados, a química entre os atores é quase palpável! Todos os personagens possuem características marcantes, o que traz uma maior profundidade aos dilemas que enfrentam. João (Edmilson Filho), por exemplo, é um homem que vê com maus olhos a revolta das donas de casa, por mais que seja um movimento legítimo. Passando necessidade em casa, ele se recusa a receber doações e acredita cegamente no sistema, que todos nós sabemos ser corrupto e possuir leis que visam apenas manter o status quo da desigualdade. Já Flávio Bauraqui dá vida ao policial militar Fonseca, que mesmo trabalhando numa instituição cujo objetivo é a manutenção deste sistema opressor, está ciente das falhas que ele e sua profissão possuem, enquanto obedece ordens superiores, muitas das quais ele não concorda.

Aliás, existe todo um debate ao longo do filme à respeito do discurso “eu só estou cumprindo ordens superiores”. Na maioria das vezes, tais ordens são aplicadas e executadas por pessoas da mesma classe social, o que camufla a responsabilidade dos verdadeiros culpados pela injustiça social: os ricos e poderosos. Uma das pessoas que questiona esse discurso é Antônia (Samantha Schmütz). Confesso que, ao ver o trailer pela primeira vez, imaginei que esta personagem seria bem parecida com a Selminha do filme “Tô Ryca“, também interpretada por Schmütz, mas não! Apesar do visual parecido, Antônia é uma mulher mais madura, criativa, de pensamento rápido e às vezes sarcástica, mas com uma vibe menos agitada que Selminha. É claro que ambas personagens possuem um pano de fundo similar, mas Samantha entrega tons únicos a cada uma.

Em tempos de alta no preço do arroz e de outros alimentos, desemprego crescendo cada vez mais e o dólar elevando o valor do nosso custo de vida, “Não Vamos Pagar Nada” mostra que, quando unido, o povo é capaz de pôr em prática verdadeiras revoluções. Engraçado e inspirador, o filme não poderia ter chegado num momento mais adequado quando observamos o cenário político geral que nosso país atravessa. Ainda que tentem nos convencer de que o cinema nacional é desnecessário e que a arte como um todo não é prioridade, filmes como este nos fazem lembrar do poder crítico e transformador da cultura. Como canta Caetano Veloso na faixa “Gente“, que toca na última cena do filme, “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome“!

NOTA: 8,5

Nota do editor: em tempos de pandemia, gostaríamos de frisar que assistimos esse filme online, numa cabine de imprensa virtual. Cabe ao leitor escolher a melhor e mais segura maneira de ver o filme, visto que ele será tanto lançado em salas de cinema quanto no streaming.

Direção: João Fonseca;
Duração: 1h27;
Gênero: comédia;
Classificação Indicativa: não definida;
Sinopse: A vida não está fácil pra ninguém e a grana é cada dia mais curta para Antônia, que está desempregada. Indignada com os preços dos produtos no único mercado do bairro, a dona de casa arma um escândalo e acaba se metendo numa enorme enrascada. Agora, ela vai precisar de muito jogo de cintura para ficar de boa com o marido e com os policiais.

Trailer:

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