Um estudante de direito, filho de advogados cariocas, heterossexual, cis, machista e homofóbico entra no banheiro masculino de um colégio. Seu nome é Tom. No local, ele encontra Sarah, pessoa não binária, meio punk, super confiante e segura. O choque entre dois indivíduos tão distintos parece, à primeira vista, a introdução daquelas piadas sobre pessoas de diferentes nacionalidades que se cruzam num bar ou avião; mas na verdade se trata do ponto de partida do curta-metragem “Flush”, que discute assuntos bem sérios.

Vencedor de três prêmios no Los Angeles International Film Festival deste ano nas categorias de Melhor Roteiro Original, Melhor Acting Duo e Melhor Curta-metragem LGBTQ, o filme foi criado, roteirizado e produzido por João Côrtes, que também atuou no projeto, dando vida à personagem Sarah. Em entrevista exclusiva ao Primeira & Sétima Arte, ele falou sobre este e outros trabalhos. “’Flush’, em minha opinião, nos faz refletir sobre o que significa ser homem na nossa sociedade atual. O que nos faz homens? O que significa ser livre? Ser feliz? Será que estamos vivendo, sendo fiéis à nossa essência? Aos nossos instintos, sentimentos, ou estamos apenas tentando atender as expectativas que são projetadas sobre nós?”, indaga o artista.

Ele continua: “Até que ponto não somos apenas um acumulado de vulnerabilidades? E porque rejeitamos tanto a ideia de termos um lado feminino? E também de sermos sensíveis, de podermos chorar… Talvez, se todos nós fossemos menos julgadores e exigentes uns com os outros, e apenas mais humanos, as pessoas se sentiriam cada vez mais à vontade para ser quem são, e não teríamos tantas crises”. Segundo João, a ideia do curta “veio da vontade de debater a masculinidade tóxica. O machismo. A quantidade de regras que nos são impostas pela sociedade, como homens, e a pressão que nossos jovens garotos sofrem constantemente, para tentar atingir esse padrão inalcançável do que é ser um ‘homem’. E como isso vai afetando o nosso subconsciente coletivo, de forma violenta, e ao mesmo tempo, discreta. É sobre desconstrução dessa máscara rígida da masculinidade, é sobre libertar-se disso tudo.

Imagem: Jonathan Wolpert

Com Nicolas Prattes no papel de Tom e Diego Freitas na direção, João repete aqui uma parceria que já havia dado certo no longa “O Segredo de Davi”, de 2018 (clique aqui para conferir nossa crítica do filme). “Ele [Diego] é um baita diretor, mega talentoso e dedicado, com essa preocupação estética, além de entender bastante sobre essa temática”, elogia Côrtes. Segundo o artista, o fato de acumular cargos no curta foi bastante desafiador, o que exigiu muita presença e entrega dele como artista. “A Sarah é uma personagem delicada, complexa, e eu – junto da equipe – fizemos questão de entender do que estávamos falando, antes de começar a filmar”, explica.

Sobre o processo de construção de sua personagem, João revela como foi o caminho de criação para que Sarah não soasse ofensiva para a comunidade não-binária. “Tivemos horas e horas de conversas, como equipe, sobre o qual a mensagem que estávamos querendo passar. Sobre qual é a história, e sobre como iríamos abordá-la. Representatividade é extremamente importante, e foi pensando nisso, que trabalhamos muito em cima do roteiro para não cometermos falhas. O que eu posso dizer, sem dar spoilers, é que a Sarah, assim como o filme, não foca na não-binariedade. Estamos falando mais sobre identidade, sobre saúde mental, sobre liberdade da mente. Tem que assistir o filme para entender.

À princípio, “Flush” seria gravado somente em inglês. O roteiro, inclusive, foi originalmente escrito no idioma estrangeiro. “A ideia era ter um material nosso (meu e do Nicolas) em inglês, para podermos usar como currículo no exterior. E o roteiro em inglês ficou redondinho”, destaca João. “Mas conforme conversávamos sobre o projeto, entendemos que fazia sentido filmar em português também. E lançar o filme pro mundo com a nossa língua mãe. Então filmamos nas duas. Nos demandou uma extra-concentração e foco. Filmávamos uma cena em português, depois a mesma cena em inglês… E assim foi. Toda a equipe ralou o dobro, mas valeu a pena! Temos dois curtas”, conta o artista. Em tempos onde os incentivos culturais por parte do governo estão cada vez mais escassos, a produção foi toda financiada com capital independente. “Foi uma produção da Tentáculo Rec, com co-produção da Parakino e a Prattes Produções”.

Imagem: Jonathan Wolpert

Além de “Flush”, João Côrtes trabalhou recentemente em outro projeto cinematográfico, o filme “Nas Mãos de Quem Me Leva”. Com distribuição da O2 Play Filmes, o longa-metragem é escrito e dirigido por João! “Eu sempre tive essa vontade de dirigir. Acho que conforme minha carreira de ator caminhava, mais isso crescia dentro de mim. Vem de uma vontade e um impulso de contar histórias… De criar personagens, criar cenas e experiências cinematográficas. Eu tenho uma certa facilidade para me comunicar, e para colocar em palavras o que eu sinto ou penso. Então esse lugar de conseguir dirigir atores me dá muito prazer. Ter a oportunidade de dirigir uma cena, de colocar amigos atores/atrizes extremamente talentosos para trabalhar junto”, explica.

Embora tenha vivido uma das experiências mais prazerosas de sua vida, o artista multi-facetado explicou que a tarefa foi mais complicada do que ele imaginava. “Olha… Foi consideravelmente mais difícil. Principalmente no sentido burocrático, técnico da coisa… A quantidade de coisas que você precisar prestar atenção ao mesmo tempo, o nível de concentração, de energia e entrega é insano. Foi um baita desafio nesse sentido. De liderar uma equipe. Saber exatamente o que quer, e levar todos por esse caminho.” Com Fernanda Marques, Neusa Maria Faro, Bruno Suzano, Ed Côrtes e Daniela Galli no elenco, o filme teve sua estreia mundial mês passado no Canadá, durante o FIN Atlantic International Film Festival. Até o momento, a produção ainda não tem data de lançamento nos cinemas nacionais.

O curta “Flush”, por sua vez, também não tem previsão de estreia nacional, mas o trailer já está entre nós (assista logo abaixo)! Num ano tão conturbado para o mundo cultural, é de extrema importância valorizarmos quem continua trabalhando em prol da arte. “Enxergo o artista como um agente da transformação, e da evolução da mentalidade humana. É nosso dever questionar, e trazer debates a tona. Muitas vezes através do incômodo, vem a reflexão”, finaliza João Côrtes.

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