Em dezembro de 2019, quando a atriz Gal Gadot e a diretora Patty Jenkins vieram ao Brasil para promover o filme “Mulher-Maravilha 1984” na CCXP19, dando início à turnê mundial de divulgação do longa, ninguém suspeitava do inimigo invisível que atacaria o mundo em 2020. Naquela ocasião, quando ainda era permitido se aglomerar, o público vibrou e se emocionou com o primeiro trailer da produção, cuja estreia estava marcada para junho deste ano. Mas junho veio, passou, e o filme não chegou.

Seis meses após sua data original de lançamento, a nova aventura da Princesa Amazona finalmente está entre nós, trazendo uma mensagem de amor, verdade e esperança justamente no momento em que mais precisamos recuperar tais valores. Com roteiro assinado por Jenkins ao lado de Geoff Johns e David Callaham, a trama é ambientada na década de 80, como sugere o título, e apresenta um mundo bem diferente daquele visto em “Mulher-Maravilha” de 2017. Agora, Diana (Gal Gadot) não é mais uma garota jovem e inocente que vê o mundo através de um prisma de dualidade. Ela passou por muitas coisas, enfrentou a dor do luto de seu grande amor e seus amigos de guerra, e compreendeu a complexidade dos seres humanos. Em outras palavras, ela amadureceu.

Imagem: divulgação

Vivendo sozinha em Washington, DC, nos Estados Unidos, Diana trabalha como historiadora no Smithsonian, uma instituição educacional e de pesquisa associada a um complexo de museus. Porém, além de estudar o passado e as grandes civilizações, ela se mantém ativa no presente salvando e ajudando aqueles que precisam, tudo isso sem deixar rastros ou pistas de sua identidade. De certo modo, essa postura vai de encontro com a declaração dada pela personagem em “Batman vs Superman: A Origem da Justiça“, quando Diana revela ter se afastado da humanidade há 100 anos. Ela, de fato, ficou um pouco distante das pessoas, mas não as abandonou e tampouco viveu totalmente isolada.

Na contramão de Diana, uma mulher que prefere ficar longe dos holofotes embora chame bastante atenção, somos apresentados a Bárbara Minerva (Kristen Wiig), uma geóloga com problemas de autoestima e socialização que sonha em ser vista, querida e desejada. Ela começa a trabalhar no Smithsonian na mesma época em que o empresário do petróleo Maxwell Lord (Pedro Pascal) decide fazer uma generosa doação à organização. No entanto, esse movimento é apenas um pretexto para ter acesso ao complexo, onde uma antiga pedra de poderes sobrenaturais está guardada após ser recuperada pelo FBI. Se aproveitando da fragilidade emocional de Bárbara, ele toma posse da pedra, e seus planos para o objeto colocam o mundo numa espiral de caos!

Imagem: divulgação

Maior e mais grandioso que seu antecessor, “Mulher-Maravilha 1984” recupera o heroísmo outrora perdido nos filmes do gênero com uma história cheia de alma e coração. Sustentado por uma mensagem poderosa, que ganha novas interpretações em tempos de pandemia, o texto do longa coloca os personagens da DC numa trama que vai além da simples premissa de “bem vs. mal”. Ao longo de duas horas e meia de projeção, o filme traz à tona questões como o impacto das mídias na formação de opiniões e controle de massas, aonde a ganância da humanidade está nos levando e as consequências disso, o verdadeiro valor das coisas, auto aceitação, empoderamento feminino, entre outros temas.

Sob a direção firme e bem-direcionada de Patty Jenkins, que deixa transparecer em várias cenas sua assinatura, o enredo se desenrola com um excelente ritmo, nem apressado e nem arrastado demais. Tudo é muito bem traçado, planejado e executado. Isso pode ser observado nos diálogos que carregam a profundidade necessária de cada personagem, nos deixando a par de seus sentimentos e visões de mundo. Com personalidades complexas e distintas entre si, todos são muito bem construídos e interpretados, com destaque para o trio Gal Gadot, Kristen Wiig e Pedro Pascal. Todos dispõem de bom tempo em tela e entregam performances poderosas e dignas de elogios!

Imagem: divulgação

A começar por Gal, a atriz está mais confortável do que nunca no papel da Princesa Amazona. Ela tem domínio da personagem, conhece seu potencial e sabe como manter a essência dela nessa nova fase de sua vida. Em vários sentidos, a israelense é de fato a Mulher-Maravilha! Já Kristen foi uma escolha acertada para o papel da Mulher-Leopardo. Durante o filme, a atriz não decepciona ao traduzir visualmente a evolução da personagem. Os trejeitos, o humor na medida certa, a postura… Toda a construção da vilã é bem feita e apresentada! Por fim, temos que tirar o chapéu para Pascal. O chileno-americano entrega uma atuação quase visceral na pele de Maxwell Lord. Seja enfrentando seus conflitos internos, utilizando seu poder de manipulação ou se dirigindo diretamente às câmeras, o ator hipnotiza nossa atenção!

Quando voltamos nossos olhares para o campo mais técnico do filme, não há do que reclamar. Mais do que utilizar a estética oitentista nos figurinos e cenários, a produção abraçou o estilo nos planos de câmera, na fotografia das cenas e até nos efeitos especiais. Ao invés de utilizar CGI em tudo, há muitos efeitos práticos que tornam o movimento do elenco nas cenas de ação mais reais e tangíveis. E falando em ação, as sequências de luta, combate e perseguição são de tirar o fôlego! Apesar de não serem tão violentas e agressivas como as de “Aves de Rapina“, a nível de comparação, elas são muito bem desenhadas e coreografadas. Ao som da trilha de Hans Zimmer, que entrega uma composição vibrante, enérgica e inspiradora em determinados momentos, tudo fica ainda mais espetacular!

Imagem: divulgação

É claro que nem tudo são mil maravilhas nesta aventura. O retorno de Steve Trevor (Chris Pine), por exemplo, é bastante confuso no começo, e sua aparição um tanto quanto repentina afasta a emoção que deveria surgir no espectador no seu reencontro com Diana. Sua presença na trama também não é muito valiosa, embora faça sentido e seja útil em situações específicas. Outro ponto negativo diz respeito a um ponto elogiado no texto: a trilha sonora. Embora não seja preciso retirar nenhum elogio feito a ela no parágrafo anterior, é preciso destacar que em alguns momentos as músicas são estrondosas demais. Faltou um pouco de delicadeza e sensibilidade em pontos chave do filme, mas nada que prejudique o conjunto da obra.

Estreando nos cinemas como o último grande lançamento de 2020, “Mulher-Maravilha 1984” consolida a franquia da personagem como uma das melhores dentro do universo cinematográfico da DC. Num ano tão assombroso como este, é um verdadeiro presente de Natal poder assistir na telona uma aventura de tom épico e espírito atemporal. Após tantos filmes de justiceiros encapuzados que mais pareciam filmes de guerra, onde o herói assumia o posto de soldado na luta contra um inimigo que busca apenas expandir seu poder, faz bem ver uma história que é tanto uma ode colorida e vibrante aos quadrinhos quanto simbólica e necessária!

NOTA: 9,0


Direção: Patty Jenkins;
Duração: 2h31;
Gênero: aventura, ação;
Classificação Indicativa: não definida;
Sinopse: Avançando para a década de 1980, a próxima aventura da Mulher-Maravilha nos cinemas a coloca frente a dois novos inimigos: Max Lord e Mulher-Leopardo.

Trailer:

COMPARTILHE

Deixe uma resposta