A vida tá foda, né? Tudo no mercado está mais caro, o dólar e o preço do combustível não param de subir, o salário rende cada vez menos (para aqueles que ainda tem a sorte de ter um emprego), ninguém aguenta mais ficar em casa por conta da pandemia (embora seja a única coisa que podemos fazer para impedir a circulação do vírus)… Dá vontade de largar tudo e fugir do planeta, certo? Pois essa também é a vontade de Lucicreide (Fabiana Karla)!

Após ser abandonada pelo marido com seus cinco filhos pequenos, a vida da empregada doméstica está um verdadeiro caos! O dinheiro é curto, as crianças estão sempre aprontando alguma coisa, e para piorar a situação, a sogra de Lucricreide se muda para a casa dela após ser despejada de sua própria residência. Os únicos momentos de sossego da diarista são quando ela está trabalhando no apartamento de uma família de classe alta, cujo patrão faz parte da equipe da Mars Mission, a primeira missão tripulada rumo ao planeta vermelho!

Imagem: divulgação

Sem entender a dimensão do projeto e disposta a se afastar dos filhos por alguns dias a fim de descansar, Lucicreide é inscrita pelo filho do patrão no grupo de candidatos que estão na disputa por uma vaga na viagem interplanetária! No entanto, antes de decolar, ela terá que passar por uma série de testes na NASA, nos Estados Unidos. Sob a direção de Rodrigo César, “Lucicreide Vai Pra Marte” é uma comédia que tinha tudo para decolar, porém por conta de falhas no roteiro e no desenvolvimento, não atinge sua própria missão: a de nos fazer rir.

Apresentada ao público brasileiro há mais de 10 anos no humorístico Zorra Total, da Rede Globo, Lucicreide é uma das mais consagradas personagens criadas por Fabiana Karla. No entanto, é preciso admitir que, com o passar dos anos, a empregada doméstica ficou um pouco datada com seu humor baseado apenas em sua regionalidade e condição social. Trazê-la num filme solo para o público de 2021, que já não vê tais personagens com os mesmos olhos de antigamente, foi uma ideia atrasada e arriscada, que exigia um pouco de atualização em seu status quo – algo que não aconteceu.

Imagem: divulgação

Embora seus trejeitos e postura não sejam ofensivos de fato, eles causam um pouco de incômodo no espectador uma vez que são a base todas as suas piadas. Não existe um texto elaborado que construa o humor, que direcione o riso, há apenas a apresentação de diferentes situações simples onde a personagem reage de maneira exagerada se comparada àqueles ao seu redor. Para piorar, todos os outros personagens tem a profundidade de um pires, da família rica que Lucicreide presta serviços até os outros candidatos que desejam ir pra Marte. A modelo Luana (Adriana Birolli), por exemplo, é a mais clichê representação da mulher que só liga pra própria beleza, cujo roteiro constrói uma rivalidade com outra figura feminina; pois é óbvio que duas mulheres não podem coexistir em paz, não é mesmo?

Além disso, o roteiro escrito por Cadu Pereiva, Chico Amorim e Dadá Coelho é cheio de furos e apresenta graves problemas de desenvolvimento. Exemplo: numa cena, Lucicreide está na casa de seus patrões gravando seu vídeo de inscrição para o Mars Mission; na cena seguinte, ela já está embarcando no avião em direção aos EUA! Até na terra do Tio Sam, durante o treinamento espacial, o processo de seleção é mal explicado na tela, com as provas que os candidatos precisam enfrentar sendo apresentadas como gincanas de algum programa dominical de auditório. Parece que não estabeleceram direito os alicerces do roteiro e foram improvisando o que vinha em seguida sem muito cuidado.

Imagem: divulgação

Por falar no treinamento dos candidatos, a cena que mostra eles chegando no Kennedy Space Center possui a pior montagem do filme inteiro! Cheia de cortes e efeitos que criam um tom frenético desnecessário, não dá nem para admirar a beleza das imagens do local. Por sorte, o trecho é rapidamente esquecido quando assistimos a cena de simulação de gravidade zero, bastante divertida e bem conduzida. Até a trilha sonora escolhida, que tem uma pegada de frevo, se encaixa de maneira eficiente durante a sequência.

Outro ponto positivo do filme são as duas cenas que fazem referência a clássicos do cinema de ficção-científica: “Star Wars” e “Alien – O 8º Passageiro“. Na primeira, Lucicreide vira a Princesa Leia num diálogo com o vilão Darth Vader; já na segunda, a icônica cena do alienígena eclodindo da barriga de um dos passageiros é recriada de maneira bem-humorada! Com atuações regulares e momentos pontuais de drama que não servem a outro propósito senão tentar arrancar algumas lágrimas do público, “Lucicreide Vai Pra Marte” é um filme que tinha o céu como limite, mas que não conseguiu sair da atmosfera de previsibilidade e falhas.

NOTA: 5,5


Direção: Rodrigo César;
Duração: 1h30;
Gênero: comédia;
Classificação Indicativa: 10 anos;
Sinopse: A casa de Lucicreide vira um inferno depois da chegada de sua sogra que, despejada, resolve morar por lá. Abandonada pelo marido Dermirrei e sem conseguir liderar seu lar diante dos seus cinco filhos, ela só tem o desejo de ir embora para bem longe. Sem entender a dimensão de uma viagem espacial, Lucicreide aceita participar de uma missão que levará o primeiro grupo de humanos ao planeta vermelho e é inscrita pelo filho de seus patrões, Tavinho. Ele lembra que seu pai estava selecionando uma pessoa para integrar um treinamento que levaria um brasileiro ou brasileira para Marte. Acreditando que vai deixar seus filhos felizes, Lucicreide parte para o treinamento em Cabo Canaveral, nos Estados Unidos.

Trailer:

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