Essa é uma crítica diferente. Por vários motivos. O primeiro deles é que, embora já tenha assistido ao filme duas vezes, ainda não acredito que estou escrevendo uma crítica sobre o “Zack Snyder’s Justice League“! Muita coisa aconteceu desde o início do movimento #ReleaseTheSnydercut quatro anos atrás, e muitos sentimentos conflitantes me atravessaram nesse período. Como fã, eu torcia e tinha esperança de que a visão original de Zack Snyder encontraria a luz do dia em algum momento; mas como jornalista, me sentia desmotivado toda vez que uma lia uma notícia sobre as pequenas chances desse sonho se tornar realidade.

Como se não bastasse o grande obstáculo chamado “executivos do estúdio”, haviam também aqueles “fãs de cultura pop” que não pensavam duas vezes antes de debochar do movimento e se posicionar contra ele. Argumentos como “perda de tempo”, “viúvas do Snyder” e “mimizentos” eram comumente utilizados por essa parcela do público nerd. Claro que ninguém era obrigado a apoiar a causa, mas qual o sentido em zombar e torcer contra? Qual o sentido em ficar do lado daqueles que visam somente o lucro quando os fãs eram os verdadeiros responsáveis pelo sucesso destes personagens? Se o cinema é uma arte, onde está a liberdade criativa do diretor?

Imagem: divulgação

Todavia, pior que os ataques gratuitos direcionados aos apoiadores da causa, o que mais doía era ver gente fazendo pouco caso da arrecadação de donativos para a Fundação Americana para Prevenção do Suicídio. Como a maioria já sabe, o motivo que levou Zack a se afastar da direção de “Liga da Justiça” foi o suicídio de sua filha, Autumn Snyder, em março de 2017. Além de exigir que a versão original do filme fosse lançada, o movimento #ReleaseTheSnydercut tinha também como objetivo atrair atenção para este assunto tão delicado. Curiosamente, haters fantasiados de influenciadores, blogueiros e jornalistas ignoravam esse ponto da mobilização em suas lives e artigos de opinião. Mas as pedras lançadas pelo caminho não foram suficientes para desmotivar os fãs!

Após muita perseverança, enfim chegou a notícia que todos esperavam, algo inédito e sem precedentes em Hollywood! Pela primeira vez, um filme que já tinha sido lançado nos cinemas teria sua versão original divulgada ao público. A vontade dos fãs foi ouvida e atendida, provando a todos que um dia duvidaram do movimento que a união faz a força! Agora cá estamos nós, podendo ver e rever o filme pelo qual tanto lutamos, podendo desfrutar de algo que exigiu dedicação e esperança. Um filme que completa a primeira parte de um plano iniciado lá atrás, em 2013, com a estreia de “O Homem de Aço” (longa também dirigido por Zack Snyder). Assim sendo, chegou a hora de avaliar essa estreia tão aguardada!

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Com a promessa de apresentar mais de três horas de cenas jamais vistas, deixando de lado todas as refilmagens de Joss Whedon, confesso que não sabia exatamente o que esperar de “Zack Snyder’s Justice League“. A sinopse oficial não trazia novos detalhes sobre a trama, e mesmo com as várias revelações feitas pelo diretor em seu perfil na rede social Vero, incluindo alguns storyboards, ainda estamos falando de uma produção com quatro horas no total. Será que havia tanto material disponível para colocar em tela? Pois a resposta é: sim! Contrariando as expectativas de alguns que acreditavam que o corte do cineasta seria apenas uma versão mais longa do filme de 2017, Zack Snyder entregou um trabalho totalmente novo e diferente, consagrando-se como um dos melhores de sua carreira!

Já que as comparações com a versão de Whedon serão inevitáveis neste texto, vamos começar com a maior delas: a duração do filme! Enquanto em 2017 eram apenas duas horas, em 2021 temos o dobro! Muitas pessoas veem isso como um problema, um ponto negativo. É compreensível quem não goste de histórias tão longas, porém quando são bem escritas e desenvolvidas, o tempo é apenas um detalhe. “…E o Vento Levou“, clássico vencedor de oito prêmios Oscar, também possui quatro horas, e isso não diminui em nada sua qualidade. Em “Zack Snyder’s Justice League“, o tempo é um aliado que possibilita maior aprofundamento nas personalidades e dramas dos personagens, além de oferecer uma melhor explanação sobre o contexto geral da trama.

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Por se tratar de uma produção de fôlego, era essencial que o roteiro fosse equivalente; afinal, é preciso manter a atenção do espectador durante todo o período. Nesse aspecto, Chris Terrio merece todos os elogios pelo seu excelente trabalho! Partindo da história criada por ele mesmo ao lado de Snyder e Will Beall, o roteirista conseguiu desenvolver um texto robusto, coeso e bem pensado, que constrói um vasto cenário dando a devida atenção ao pequenos detalhes. É claro que há trechos que poderiam ser cortados ou reduzidos, porém cada fragmento de cena é valioso e contribui para a magnitude da obra. Além disso, a decisão de dividir o filme em capítulos inova ao oferecer ao espectador, este cada vez mais habituado a produções curtas e rápidas, a possibilidade de escolher como deseja ver o filme: de uma vez ou em partes.

Outro ponto bastante positivo do roteiro é a maneira como os heróis são desenvolvidos, tanto sob a ótica individual quanto coletiva. Separadamente, todos desfrutam de um bom tempo de tela, principalmente os novatos Ciborgue (Ray Fisher) e Flash (Ezra Miller). O herói conhecido pela identidade secreta de Victor Stone é quem possui o arco mais bonito de todos, passando grandes transformações ao longo da película mas sem perder sua essência. A atuação de Fisher também é inegavelmente a melhor de todo o elenco. O ator transmite todas as emoções do personagem com segurança e maestria. Outra pessoa que também está confortável em seu papel é Gal Gadot. Seja como Diana Prince ou Mulher-Maravilha, a atriz se mostra mais uma vez como a escolha perfeita para dar vida a princesa amazona!

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Condizente com a postura do personagem ao final de “Batman vs Superman: A Origem da Justiça“, Ben Affleck está menos sisudo na pele do cavaleiro das trevas neste novo filme. O ator ainda estrega uma boa performance do herói, com ares mais esperançosos e até com algumas pitadas de humor (mas nada como a horrível descaracterização do cruzado encapuzado causada por Whedon em 2017, numa tentativa de aproximar o tom de Bruce Wayne ao de Tony Stark). Seu relacionamento com Alfred (Jeremy Irons) transmite muito bem a intimidade que os personagens possuem nas HQs, e mesmo aparecendo pouco, o mordomo não decepciona em nenhum momento. Henry Cavill é outro nome que merece elogios. O ator prova mais uma vez ser o Superman definitivo ao transitar sem dificuldades entre os extremos emocionais envoltos no retorno do herói. Em uma determinada cena, uma pequena mudança de semblante traduz o conceito abstrato de recuperação de memória, podendo emocionar um espectador mais atento. Suas cenas de combate no final também são de tirar o fôlego e capazes de fazer qualquer um vibrar no sofá!

Jason Momoa como Aquaman está bem, sem grandes ressalvas, enquanto Ezra Miller entrega um Flash/Barry Allen melhor do que o visto outrora, mas ainda assim um pouco fora do tom desejado para o velocista escarlate. Se tratando do elenco de coadjuvantes, Amber Heard e Joe Morton são os que mais se destacam. A atriz dá vida a uma princesa Mera poderosa, que faz a diferença nas poucas cenas que possui! Já o responsável por interpretar Silas Stone contribuiu positivamente para a trama em vários momentos. Porém, não há dúvidas de que o personagem que mais evoluiu se comparado a versão de 2017 foi o Lobo da Estepe. De um simples conquistador em busca de mais poder, o vilão ganhou uma motivação mais elaborada, se tornando verdadeiramente uma ameaça ao planeta Terra, um perigo brutal. Ah, e não podemos esquecer a rápida mas impactante participação de Darkseid, capaz de causar medo no espectador mesmo sem pronunciar mais que dez palavras!

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Como nada neste mundo é perfeito, “Zack Snyder’s Justice League” possui sim alguns pontos negativos. A escolha criativa a respeito da comunicação entre os atlantes, por exemplo, é pouco prática e sem sentido; e o visual mais sombrio do reino submarino também é menos atrativo em comparação ao apresentado em “Aquaman“, de James Wan. A ressureição do Superman continua pouco emocionante, e a violência de seu retorno é desnecessária para a trama. Ele poderia simplesmente ressurgir confuso e nada mais. O modo como o Flash corre ainda incomoda um pouco, mas nada que tire seu brilho. Há também um pequeno problema com o contraste das cores ao longo de algumas cenas e alguns vícios imagéticos e sonoros, mas no geral, nenhuma dessas falhas são capazes de estragar a obra por completo.

De volta aos pontos positivos, um dos maiores acertos desse corte é o modo como a Liga é retratada e desenvolvida como grupo. Na primeira vez trabalhando juntos, a harmonia entre os heróis não é das melhores, mas organicamente eles evoluem e encontram o tom certo para operar unidos. Nada é forçado ou atropelado, tudo acontece no seu devido tempo. Do início ao fim, o ritmo do filme é bastante equilibrado, com cenas mais “paradas” proporcionando profundidade a trama e exercendo a função de contrapor as grandiosas e espetaculares sequências de ação, que por sua vez são muito bem coreografadas! A luta final, por exemplo, é simplesmente estupenda, além de possuir um dos momentos mais lindos de todo o universo estendido da DC nos cinemas!

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Embalado por uma trilha sonora épica do compositor Tom Holkenborg e cheio de referências, surpresas e easter-eggs que deixam ganchos para várias continuações, este é o longa que a maior equipe de super-heróis merecia. Arrebatador, “Zack Snyder’s Justice League” é uma uma experiência narrativa cinematográfica nunca antes vista ou explorada no gênero de super-heróis. Um filme que conquistou seu lugar na história e será lembrado e reverenciado por muitas gerações que estão por vir, não somente por sua qualidade indiscutível como longa-metragem, mas também por tudo aquilo que ele representa aos fãs e ao próprio diretor.

P.S.: o diálogo entre Batman e Coringa (Jared Leto) no epílogo é um dos melhores do filme todo! Não perca!

NOTA: 9,5


Direção: Zack Snyder;
Duração: 4h02;
Gênero: aventura, ação;
Classificação Indicativa: não definida;
Sinopse: Em “Liga da Justiça” de Zack Snyder, determinado a garantir que o sacrifício final do Superman (Henry Cavill) não fosse em vão, Bruce Wayne (Ben Affleck) alinha forças com Diana Prince (Gal Gadot) com planos de recrutar uma equipe de metahumanos para proteger o mundo de um ameaça se aproximando de proporções catastróficas. A tarefa se mostra mais difícil do que Bruce imaginava, pois cada um dos recrutas deve enfrentar os demônios de seu próprio passado para transcender o que os impediu, permitindo que se unissem, finalmente formando uma liga de heróis sem precedentes. Agora unidos, Batman (Affleck), Mulher-Maravilha (Gadot), Aquaman (Jason Momoa), Ciborgue (Ray Fisher) e Flash (Ezra Miller) podem ser tarde demais para salvar o planeta de Lobo da Estepe, DeSaad e Darkseid e seus intenções terríveis!

Trailer:

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