Existe uma música da cantora Jessie J chamada “I Miss Her” na qual a britânica diz: “eu sinto saudades dela, embora ela ainda esteja aqui“. A primeira vista, o verso não faz muito sentido. Ora, como é possível sentir saudades de alguém que não se foi de fato? Se a pessoa continua aqui, não há razão para sentir falta dela, certo? Bom, nem sempre.

Algum tempo após o lançamento da canção, a artista revelou numa entrevista que a faixa, escrita por ela mesma, era sobre uma familiar que sofria de Alzheimer, uma doença mental progressiva e incurável que afeta a memória e outras funções motoras importantes. Quem sofre deste mal acaba se perdendo em si, partindo sem ir embora, assim como o protagonista de “Meu Pai“.

Imagem: divulgação

Dirigido pelo dramaturgo francês Florian Zeller, e roteirizado a partir de sua própria peça de teatro, este drama indicado a seis categorias do Oscar 2021 – incluindo Melhor Filme – acompanha o relacionamento de Anthony (Anthony Hopkins) e sua filha, Anne (Olivia Colman). Aos 81 anos de idade, ele mora sozinho num apartamento em Londres e se recusa a aceitar ajuda das cuidadoras que a filha continua a contratar.

Ela, por sua vez, tem planos de se mudar para Paris com o novo companheiro, mas não quer deixar o pai sozinho e desamparado. Sentindo-se rejeitado e um pouco manipulado, Anthony começa a questionar o amor de sua filha por ele, e também sua percepção dos acontecimentos ao seu redor. Angustiante, doloroso e visceral, “Meu Pai” aborda com sensibilidade o tratamento que a sociedade dá aos seus membros mais velhos.

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Partindo de um lugar comum a tantas famílias ao redor do mundo, o roteiro bem elaborado acerta ao colocar o espectador sob o ponto de vista de Anthony. Nas primeiras cenas, tudo indica que a história seguirá um caminho linear, mas com o desenrolar da trama, logo surgem as inconsistências, os desencontros, as dúvidas… Do cenário aos personagens, tudo contribui para que experimentemos a sensação de confusão enfrentada pelo protagonista.

Entre os corredores e cômodos do apartamento, os atores dão um show de interpretação, com destaque para Anthony Hopkins. Bastante verborrágico, ele entrega esta que é provavelmente uma das melhores performances de sua vasta carreira! O modo como transita entre as emoções do personagem torna todo o drama mais realista, convincente e comovente; uma atuação digna de aplausos.

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Olivia Colman também não fica muito pra trás. Claro que contracenar com um Hopkins tão confortável em seu papel é deveras desafiador, mas a britânica dá conta do recado! Na pele de Anne, a atriz dá vida a uma personagem que tenta se equilibrar na corda bamba entre seguir com sua vida pessoal ou dedicar todo seu tempo a cuidar do pai. Qualquer decisão que ela tome gerará grandes impactos em sua vida, mas ela tenta conciliar tudo simultaneamente, mesmo que isso a machuque por dentro e ainda crie novas feridas.

Munido de um ótimo texto e uma montagem excelente, “Meu Pai” é um poderoso soco no estômago que te fará refletir dias a fio sobre questões latentes à vida, morte, e tudo que há no meio disso. Um filme que te fará dizer “eu te amo” àqueles que ainda estão aqui, mas que um dia podem partir sem de fato ir embora.

NOTA: 9,0


Direção: Florian Zeller;
Duração: 1h37;
Gênero: drama;
Classificação Indicativa: 12 anos;
Sinopse: Anthony tem 81 anos de idade. Ele mora sozinho em seu apartamento em Londres, e recusa todos as enfermeiras que sua filha, Anne, tenta impor a ele. Mas isso se torna uma necessidade maior quando ela resolve se mudar para Paris com um homem que conheceu há pouco, e não poderá estar com pai todo dia. Fatos estanhos começam a acontecer: um desconhecido diz que este é o seu apartamento. Anne se contradiz, e nada mais faz sentido na cabeça de Anthony. Estaria ele enlouquecendo, ou seria um plano de sua filha para o tirar de casa?

Trailer:

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