Ansiedade. Uma palavra de nove letras capaz de provocar inúmeras sensações. De acordo com uma pesquisa global liderada pela Universidade Estadual de Ohio, nos EUA, o Brasil é o país com maior índice de ansiedade durante a atual pandemia do novo coronavírus. O que para alguns pode parecer “frescura”, para outros é um problema sério de saúde mental e emocional. No filme “Depois a Louca Sou Eu“, que chega hoje (06) no catálogo do Amazon Prime Video, o assunto é abordado com humor, mas sem faltar com o devido respeito. Em entrevista para o Primeira & Sétima Arte, a diretora Júlia Rezende falou sobre os bastidores da produção, a pandemia e mais!

Eu nunca tive uma crise de ansiedade, nunca passei por essa experiência, mas sem dúvidas acho que esse ano de pandemia foi um ano de muita angústia, muita incerteza, muita ansiedade“, explica Júlia após ser questionada se já havia passado por alguma situação parecida com a da protagonista Dani, interpretada por Débora Falabella. “Acho que a ansiedade veio muito também da gente querer fazer algo que não pode, as coisas estão fora do nosso controle, então tem uma impotência muito forte. Sem dúvida eu passei por esse sentimento, mas sem que tivesse sido tão grave quanto a Dani enfrenta“, completa.

Inspirado no livro homônimo de Tati Bernardi, o longa acompanha Dani, uma mulher que enfrenta constantes crises de ansiedade mas que, desde criança, procura viver uma vida normal. “Ela é uma mulher muito livre, que exerce sua liberdade afetiva, uma mulher ambiciosa, uma mulher muito realizadora apesar de todos os percalços“, destaca a diretora. Na opinião dela, a personagem não é nem um pouco frágil por conta de sua condição. “A gente tem ali uma mulher como todas nós, que está batalhando, que está fazendo suas coisas, mas que enfrenta crises de ansiedade. Acho que a maioria das pessoas que passam por esse tipo de questões relacionadas à saúde mental, não necessariamente são pessoas frágeis. Elas têm seus momentos de vulnerabilidade“.

Responsável por comandar comédias como “Meu Passado Me Condena“, de 2013; “Um Namorado Para Minha Mulher“, de 2016; e “De Pernas Pro Ar 3“, de 2018; em “Depois a Louca Sou Eu” a cineasta coloca o espectador numa corda bamba que ora pende para o riso descontrolado, ora pende para a sensação de que não é correto rir naquele momento. “O revés da tragédia é a comédia. No dramático tem o patético ao mesmo tempo, e eu acho que isso que é o bacana. Ao mesmo tempo que aquela mulher está vivendo todas aquelas situações difíceis, quando se distancia e se afasta do momento para narrar aquela história, ela consegue rir de si mesma“, afirma Júlia. “Ela consegue ver que, na hora, é muito ruim estar deitada no chão com o pé em cima do vaso sanitário, mas que quando você para pra olhar isso de um jeito distanciado, é muito engraçado“.

A fim de traduzir visualmente da melhor maneira possível como as crises de ansiedade afetam Dani, o filme usa e abusa de recursos gráficos na tela. Segundo a diretora, tudo isso foi planejado com muita antecedência para que nada desse errado! “A gente já tinha reuniões com o pessoal que fez toda a pré-produção, as animações gráficas, porque a gente tinha que filmar sabendo o que ia ser aplicado em tela. Tinha que estar tudo muito bem combinado entre todos para que as coisas funcionassem“, conta. “E eu adorei o resultado, eu achei que deu um ar pop para o filme, trouxe uma linguagem jovem que eu fiquei contente“, acrescenta.

Por falar em jovem, um dos destaques do longa é a performance da pequena Duda Batista, que interpreta a versão infantil de Dani. “A Duda é um talento enorme! Eu já tinha dirigido ela no ‘De Pernas Pro Ar 3’, que ela fazia a filha da Ingrid, e ela é uma menina incrível. Ela é propositiva, criativa, ela não se intimida no set… Foi muito bacana a experiência“, relembra. “A gente tinha uma preparadora de elenco, que é a Cristina Bittencourt, que foi uma grande parceira no trabalho com a Duda, e foi muito legal porque ela tem uma compreensão da situação, do drama da personagem. Eu acho ela um máximo, é um talento que a gente vai acompanhar muito ainda“, completa.

Entre os desafios de adaptar uma obra literária para as telonas, Júlia explica que a escrita do roteiro levou mais tempo durante todo o processo de produção do filme. “A gente teve muitas idas e vindas, entender o que queria extrair e o que eu não queria perder de cenas que estavam no livro”. Apesar da obra ser inspirada numa pessoa real e em acontecimentos verídicos, a diretora não enxerga o projeto como algo biográfico. “Eu queria aproveitar o que o livro tinha de melhor, mas eu nunca me senti restrita a ter que cumprir aquilo“, pontua.

Provocativo, engraçado e bem executado, “Depois a Louca Sou Eu” é um filme atual capaz de entreter e fazer pensar, principalmente em tempos de quarentena e isolamento social. “Acho que um dia a gente vai conseguir rir de tudo isso“, finaliza.

P.S.: para saber mais sobre a pesquisa de ansiedade citada no início do texto, clique aqui.

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