Em pleno 2021, falar sobre sexo não deveria mais ser considerado tabu. Seja do ponto de vista biológico ou do prazer, esta é uma prática intrínseca à humanidade (literalmente). Em alguns casos, o preconceito quanto ao assunto vem da falta de conhecimento sobre; por isso é muito importante aproveitar todas as oportunidades e plataformas que surgem para discutir o tema. No entanto, nem todo mundo tem êxito em explorar tais chances, desperdiçando o espaço que lhes é dado. Esse é o caso da comédia “Dois + Dois“, que chega hoje aos cinemas.

Remake do longa argentino de mesmo título, a versão brasileira é dirigida por Marcelo Saback e conta a história de Diogo (Marcelo Serrado) e Emília (Carol Castro), um casal que está junto há quase duas décadas. Ele é um cardiologista de sucesso, preocupado com a carreira e com pouco tempo para se divertir; e ela, uma linda, mas recatada garota do tempo de um telejornal. O casamento morno dos dois é virado de cabeça pra baixo quando eles descobrem que os melhores amigos, Ricardo (Marcelo Laham) e Bettina (Roberta Rodrigues), têm um relacionamento aberto. Mais do que isso, são adeptos da prática de troca de casais (swing), vivem super seguros com a escolha e tentam convencê-los de que é possível ser muito feliz levando esse estilo de vida mais liberal.

Imagem: divulgação

Depois do susto e estranhamento inicial, Emília começa a questionar seu casamento e muda de ideia sobre a prática. Com muita dificuldade, ela convence o marido, que é completamente contra o intercâmbio de casais (mas sonha secretamente com a mulher do amigo), a ir a uma festa com a “turma” de Ricardo e Bettina. A partir daí, uma série de acontecimentos abala a vida íntima e pública do casal, que passa a aderir à prática com os amigos. Apesar da premissa ousada, “Dois + Dois” é um filme que tem medo de se permitir, mesmo falando de sexo.

Com roteiro adaptado pelo próprio diretor, o longa se utiliza da fantasia e do mistério envolvendo a prática do swing para atrair o público, mas entrega uma história básica de romance com clichês e piadas datadas. Durante a coletiva de imprensa, o próprio Saback disse que o original argentino é mais erótico, então porquê suavizar esse lado da história? Por que não mergulhar na pluralidade da sexualidade humana? Seria uma ótima maneira de trazer um pouco de luz para este assunto, desmistificando algumas questões e mostrando que são várias as formas de se obter prazer entre quatro paredes. Na prática temos um texto preso na zona de conforto narrativa que, embora deseje passar uma imagem de moderno e progressista, ainda faz piadas com homossexualidade e homens afeminados.

Imagem: divulgação

Peças fundamentais da trama, os personagens são um tanto quanto bidimensionais. Diogo e Emília, por exemplo, formam um casal mais conservador, mas não existe uma explicação do porquê disso. Do mesmo modo, não há uma justificativa para Ricardo e Betina serem mais liberais. Eles apenas são. Isso deixa uma sensação de vazio nas motivações dos personagens. Ah, também vale dizer que, com exceção de Roberta Rodrigues, o elenco não funciona muito bem na comédia, principalmente Marcelo Serrado. Sua atuação é fraca e, por vezes, forçada.

Mas é claro que nem tudo são defeitos! A fotografia, a paleta de cores e a montagem são de qualidade, entregando cenas muito bonitas. Aliás, dois momentos chamam bastante a atenção: o primeiro é uma ótima referência ao filme “Beleza Americana“, do diretor Sam Mendes, com a atriz Roberta Rodrigues; e o segundo é um plano sequência muito bem coreografado, que explora uma das experiências sexuais dos casais. Pena que a estética não salve a película como um todo. Tímido, comedido e até mesmo conservador, “Dois + Dois” é como a promessa de uma boa noite de sexo que termina numa brochada decepcionante.

NOTA: 4,0


Direção: Marcelo Saback;
Duração: 1h45;
Gênero: comédia;
Classificação Indicativa: 16 anos;
Sinopse: ‘Dois + Dois’ acompanha Diogo e Emília, um casal que está junto há 16 anos e que encontra-se em meio a uma fase monótona. Porém, tudo vira de cabeça pra baixo quando eles descobrem que Ricardo e Bettina, seus melhores amigos, possuem um casamento aberto e praticam a troca de casais. Agora, seus amigos tentam convencê-los de que é possível ser feliz levando esse estilo de vida.

Trailer:

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