Certo manhã você acorda, como em qualquer dia normal de sua vida. Mas dessa vez há algo diferente, uma inquietação difícil de explicar. A princípio, não parece grande coisa, e você segue em frente; mas, aos poucos, ela começa a tomar conta. É uma sensação, um sentimento incomum, como se tivesse esquecido de fazer algo muito importante. Você não consegue se concentrar, não mantém o foco em uma atividade por muito tempo, quer abraçar o mundo mas não consegue fazê-lo. É então que percebe que tal inquietação tem nome: ansiedade. E é assim que Julie (Renate Reinsve), protagonista de “A Pior Pessoa do Mundo“, se sente.

Imprevisível, inquieta e volátil, Julie está chegando aos trinta e sua vida é uma bagunça existencial! Ao longo dos anos, ela começou diferentes cursos na faculdade, mas não terminou nenhum. Tentou seguir caminho em múltiplas carreiras, mas não se encontrou em nenhuma delas. Vários de seus talentos foram desperdiçados, e seu namorado, Aksel (Anders Danielsen Lie), um cartunista de sucesso quase 20 anos mais velho que ela, quer constituir família e se estabelecer de uma vez, algo que não está nos planos da moça!

Imagem: divulgação

Uma noite, após deixar um evento de lançamento de um novo trabalho de Aksel, Julie entra de penetra em uma festa de casamento e conhece o charmoso Eivind (Herbert Nordrum). A partir daí, ela passa por altos e baixos em seus relacionamentos pessoais e familiares, numa jornada que promete finalmente colocá-la no caminho certo, se é que existe algum! Dirigido pelo norueguês Joachim Trier, “A Pior Pessoa do Mundo” é um reflexo da geração dos millennials; que por sua vez é desapegada, mutável, acelerada, um tanto quanto perdida em relação às expectativas da vida, mas acima de tudo ansiosa.

Através da personagem principal, primorosamente interpretada por Renate Reinsve – que inclusive venceu o Prêmio de Melhor Atriz do Festival de Cannes 2021 por sua performance no longa -, o roteiro escrito por Trier ao lado de Eskil Vogt captura alguns dos principais dilemas vividos pelos jovens hoje em dia; que vão desde o quê estudar na faculdade, passando por qual carreira seguir, com quem se relacionar e construir uma vida a dois, até ter filhos ou não. Dividido em 12 capítulos, além do prólogo e epílogo, o filme faz um recorte quase poético sobre essa fase entre o fim da adolescência e o auge da vida adulta.

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Com duas horas e oito minutos de duração, o longa possui um ritmo agradável, mas que exige disposição do espectador para se conectar à trama. Descrito pelo diretor como “uma comédia romântica para pessoas que odeiam comédias românticas“, não espere um humor clichê nas situações vividas por Julie, mas prepare-se para algumas boas risadas! Enquanto rola a projeção, vale reparar também na belíssima fotografia das cenas. As cores, formas e texturas das paisagens de Oslo são sabiamente aproveitadas pela câmera, ajudando a compor os cenários. Aliás, isto não é um spoiler, mas uma das sequências mais lindas do filme acontece quando o mundo ao redor de Julie congela e ela corre livre pela cidade atrás de Eivind, a fim de viver um dia de amor!

Indicado ao Oscar 2022 nas categorias de Melhor Roteiro Original e Melhor Filme Internacional, “A Pior Pessoa do Mundo” é um ótimo fruto da percepção de seu tempo, que atingirá de diferentes modos cada geração, mas que deixará a mesma mensagem para todos: a de aproveitar a vida no seu próprio tempo, sem ceder às pressões e comparações exteriores, e sem medo de errar, arriscar, experimentar, e começar tudo outra vez caso necessário.

NOTA: 7,5


Direção: Joachim Trier
Duração: 2h08;
Gênero: drama, romance;
Classificação Indicativa: 16 anos;
Sinopse: Julie é jovem, bonita, inteligente e não sabe exatamente o que deseja em uma carreira ou parceiro. Uma noite ela conhece Aksel, um conhecido romancista gráfico 15 anos mais velho que ela, e eles rapidamente se apaixonam. Todavia, ela também conhece um barista de café, Eivind, que também está em um relacionamento. Julie tem que decidir, não apenas entre dois homens, mas também quem ela é e quem ela quer ser. Entre idas e vindas, Julie escolhe com quer ficar e mais problemas surgem em sua vida. O longa aborda um momento específico da vida em que a energia inquieta da imensa possibilidade da juventude se mistura com a sensação melancólica e existencial sobre aceitar a pessoa mais difícil que você pode conhecer: você mesmo – e que mudanças fazem parte de sua vida.

Trailer:

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